Veja os desdobramentos do caso da deputada Flordelis, suspeita de encomendar morte do marido

 

Deputada Flordelis e o pastor Andernon, morto em 2019. Foto reprodução

Denunciada como mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, a deputada federal e cantora gospel Flordelis (PSD-RJ) chegou a ser mãe de criação e “sogra” dele antes de se casarem. As relações familiares do clã, que reunia 55 filhos (51 deles adotivos), foram investigadas e, segundo a Polícia Civil do Rio, estão por trás do assassinato.

Nos anos 90, quando adolescente, Anderson começou a frequentar a casa onde Flordelis morava na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio. À época, ele conviveu com os três filhos biológicos do primeiro casamento dela e outras quatro crianças adotadas — segundo a polícia, de forma ilegal (sem autorização da Justiça). A partir desse convívio, Anderson logo passou à condição de filho de criação de Flordelis e, mais tarde, assumiu a posição de genro da futura parlamentar, porque namorou Simone dos Santos Rodrigues — filha biológica do primeiro casamento de Flordelis, que também foi presa na segunda-feira (24) acusada de envolvimento na morte do pastor.

O casal dizia ter 55 filhos —três do primeiro casamento de Flordelis; outro, fruto da segunda união, e mais 51 adotivos.

Ao todo, foram detidos na segunda-feira passada cinco filhos e uma neta de Flordelis. A deputada não pôde ser presa porque tem imunidade parlamentar. Dois outros filhos já se encontravam detidos.

A polícia acredita que cerca de 20% da família tenha envolvimento no crime e que a própria deputada federal Flordelis deu o sinal para que o plano de matar o pastor Anderson do Carmo entrasse em ação.

Às 3h03 do dia 16 de junho de 2019, um domingo, ela mandou uma mensagem para a filha adotiva Marzy Teixeira da Silva, que foi presa na segunda-feira (24). A deputada escreveu: Oito e quinze me chama.

A polícia afirma ter evidência pelo celular que Marzy estava acordada e partir daí teria acionado Flávio dos Santos, filho biológico de Flordelis, e que é apontado como autor dos disparos que mataram o pastor. Ele foi preso no velório do padrasto. Os investigadores acreditam que era um código. Anderson morreu meia hora depois.

Filha pesquisou na internet: ‘Assassino onde achar’

A polícia tem outras provas de participação de Marzy na trama: ela tinha ganhado da mãe a missão de contratar alguém para matar o pastor.
Chegou a pesquisar na internet por termos que a levassem a alguém para executar o serviço:
“Assassino onde achar”
“Alguém da barra pesada”
“Barra pesada online”

Envenenamento

Um parecer médico sobre as tentativas de envenenamento do pastor Anderson foi anexado à denúncia do Ministério Público do Rio.

O documento lembra que o pastor compareceu ao hospital “por seis ocasiões diferentes, num período de cinco meses”, com os mesmos sintomas: “náuseas, vômitos frequentes, dor abdominal e mal estar geral.”

O pastor passou por exames que não descobriram problemas gastrointestinais, como gastrite e infecções por bactéria.

Os peritos do MP concluíram “fortes indícios que as seguidas internações dele, com idênticos sinais e sintomas, configuram intoxicação exógena continuada – ou seja devido a causas externas – por via oral, praticada por terceiros – o chamado envenenamento crônico.”

Ainda segundo os peritos, “considerando as características de ordem clínica , apresentadas pela vítima, e as manifestações clínicas, eles sugerem que o agente empregado foi arsênico.”

Os peritos ressaltam que também “existiu intenção de intoxicar Anderson do Carmo em data posterior aos atendimentos médicos, com cianeto. Visto que foi evidenciada pesquisa na internet relacionada a essa substância por parte dos envolvidos.”

Conclusão do inquérito

O pastor Anderson do Carmo de Souza – marido da deputada federal Flordelis – foi executado com mais de 30 tiros na madrugada de 16 de junho de 2019, pouco depois de chegar em casa, em Pendotiba, Niterói.

O inquérito concluiu que Anderson foi morto por questões financeiras e poder na família – o pastor controlava todo o dinheiro do Ministério Flordelis, hoje rebatizado Comunidade Evangélica Cidade do Fogo.

Flordelis é uma das 11 pessoas denunciadas pelo MPRJ.

Após o crime, Flordelis relatou em depoimento e à imprensa que o pastor teria sido morto em um assalto.

A deputada vai responder por cinco crimes: homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima), associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e tentativa de homicídio (pelo envenenamento).

O que dizem Flordelis e outros acusados

Desde o início das investigações, a deputada nega participação no assassinato de Anderson. Na segunda, dia em que a denúncia foi apresenta e os filhos de Flordelis, presos, a defesa da deputada se disse “surpresa” com a operação.

“Preciso ainda apurar o que consideraram como provas e o que permitiu o indiciamento e as prisões. Preciso ainda ter acesso a essas informações, mas digo que ficamos surpresos com essa ação hoje”, afirmou o advogado Anderson Rollemberg, por meio de nota.

O advogado Maurício Mayr enfatizou que a parlamentar fora ouvida pela polícia na condição de testemunha e disse acreditar na inocência dela.

“A deputada desde o início desse segundo inquérito foi tratada como testemunha, vindo a ser indiciada agora no final e denunciada. Tivemos acesso hoje [segunda-feira] ao processo, vamos fazer análise e estudo do caso. Ela figurava como testemunha na ocasião e não atrapalhou as investigações. Todos foram encontrados, as pessoas que tiveram a prisão em seu desfavor.”

O defensor disse ainda que “a juíza da Vara acertadamente falou da desnecessidade de prisão preventiva da deputada, apesar de ter a imunidade parlamentar, ela entendeu ser desnecessário prendê-la neste momento até por causa do lapso temporal que se passou desde o fato até o presente momento”.

O advogado dos cinco filhos e da neta da parlamentar presos, Luiz Felipe Alves, disse que o processo está em segredo de Justiça, o que implicou na demora da leitura dos autos. Segundo ele, já é possível afirmar que os argumentos da decisão são genéricos “sem qualquer individualização quanto à real e efetiva necessidade de prisão cautelar para cada um dos acusados”.

Em nota, a defesa enfatizou que os filhos e a neta da parlamentar são “pessoas íntegras, primárias, detentoras de ótimos antecedentes, com residência fixa e trabalho lícito”.

Compilação: G1 e UOL

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