Superando as aparências

“Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.”
(1 Pedro 3.15)

É o que Pedro está orientando neste verso: vivam além das aparências. A fé proposta pelo Evangelho tem sua semente depositada em nosso coração, em nosso interior. Usando a figura do coração, lemos em Provérbios que devemos guardar com todo zelo o nosso coração, pois é de lá que vem as orientações que guiam nossas atitudes, nossas respostas e nossas reações. Lá estão nossos verdadeiros anseios (Pv 4.23). Alguém já disse que, assim como não temos coragem de comer algo estragado, deveríamos ter medo também de comer ideias estragadas. Devemos julgar as ideias, tanto as que nos chegam como as que produzimos por nós mesmos. Isso é cuidar do coração. E cuidar do coração é importante para superar as aparências. Visto que ele representa o centro da vida e envolve crenças, paradigmas, perspectivas, tudo que nele abrigarmos gera rá consequências para nossa vida e para a vida dos outros. É esse lugar complexo e que nos define que Cristo deve influenciar. É nesse lugar que alguém disse ser “terra que ninguém pisa” que Cristo deve pisar, e lá governar e ser santificado, honrado. Sabendo quem Ele é e o que Ele pensa, devemos ir então reorganizando nosso mundo interior.

Há um risco para nossa fé que devemos reconhecer: o de sermos cristãos de aparências, cuja fé é mais forte nos ritos e tradições do que no amor e compaixão. Não somos cristãos porque participamos de cultos, esta parte palpável e aparente de nossa fé. Se o que cantamos a Deus no culto não interfere no modo como agimos em casa, nos tornamos vítimas da ilusão das aparências. Se oramos a Deus e tratamos o nosso próximo sem amor e respeito, também. Não é a sinceridade com que cantamos e oramos que define nossa espiritualidade, mas o modo como agimos por causa do que cantamos e por causa das orações que fazemos. Precisamos ser capazes de diferenciar o circunstancial do principal, o relativo do absoluto! Ou seremos cristãos de aparências. Nosso desafio é ser e não performar. Devemos ser sal e luz (Mt 5.13-14). Não basta saber falar sobre sal e luz. Não basta termos ideias certas, respostas certas, hábitos religiosos bem arraigados, uma moralidade adequada às exigências de nossa igreja. Tudo isso tem seu valor, mas perde todo o valor se não formos guiados pelo amor a Deus e às pessoas. Sem amor estaremos sempre aquém da vida que o Evangelho nos chama a ter. Ficaremos nas aparências.

Precisamos nos fazer perguntas e buscar quebrantamento. Como canta Jorge Camargo, precisamos pedir a Deus que amoleça nosso coração e molhe nossos olhos. A fé ensinada por Jesus não produz corações duros e nem olhos secos. Aparências fazem isso. Devemos ter cuidado. Devemos aproveitar situações que nos abalam para perguntar a nós mesmos e especialmente a Deus: estou no caminho certo? E mesmo firmes, devemos nos manter atentos e sempre desejosos de sermos esclarecidos pelo Espírito de Deus. Não devemos nutrir um coração duro e uma postura inflexível. Para vivermos além das aparências é preciso viver de forma frágil, aprendendo a reconhecer erros e buscando perseverantemente olhar a vida com os olhos de Deus. A força humana é celeiro de ilusões espirituais. É na fraqueza que o poder de Deus se aperfeiçoa. Superar as aparências é aprender a viver guiado pelo que não se vê. Sejamos ensináveis e busquemos aprender. Que o Espírito de Deus nos guie em toda verdade. Que estejamos atentos pois a vida de aparências é mais comum do que pensamos.

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