Sistema de crédito chinês: monitoramento ou confiança?

Pensar em um grande sistema governamental que monitora todas suas atividades pode parece um episódio da série de ficção científica Black Mirror, mas é uma realidade mais próxima do que pensamos.

Desde 2014, está sendo implantado um sistema de crédito na China que se baseia em um ranking de confiança. Por enquanto, o sistema é apenas um projeto piloto, mas a expectativa do governo chinês é de que até 2020 seus quase 1,4 bilhão de habitantes sejam monitorados e recompensados com uma pontuação que dirá ao mercado quão confiáveis eles são.

Mas como exatamente isso funciona e qual a repercussão que esse sistema está tendo pelo mundo?

O sistema de crédito Chinês

Qualquer país possui seu sistema de crédito para que as empresas concessoras deste possam determinar o nível de risco de conceder ou não crédito a cada cidadão.  Aqui no Brasil, o SPC e o Serasa são responsáveis pelo sistema que informa às empresas quando um cidadão que solicita crédito ou tenta fazer uma compra a prazo é ou não um bom pagador.

A diferença para o sistema chinês, no entanto, é que o brasileiro só monitora as informações financeiras — como quando você está em atraso com uma conta —, enquanto o programa chinês pretende monitorar desde o tipo de itens que seus cidadãos compram na internet até as atitudes que tomam durante um jogo online.

Em um projeto da Sesame Credt, empresa de crédito do gigante chinês Alibaba, os usuários chineses que se cadastrarem no Counter Strike Global Offensive, um dos games mais populares do mundo, e forem flagrados cometendo delitos durante o jogo poderão sofrer penalidades na sua pontuação de crédito. Da mesma forma, quem compra muitos jogos e, portanto, presume-se que passa muito tempo ocioso jogando também poderá ter a pontuação reduzida.

Isso somente para citar um exemplo. As possibilidades de ações que podem reduzir ou aumentar a pontuação são várias: onde você jantou no último final de semana, quais conteúdos assiste na internet, com quantos dias de antecedência seus impostos são pagos, o que você posta nas suas redes sociais e por aí vai.

Monitoramento ou confiança

No documento que divulgou o plano de crédito, o Conselho de Estado chinês diz buscar “forjar um ambiente na opinião pública em que a confiança será valorizada”. Mas há quem diga que essa confiança na verdade seja uma forma de controle do Estado com seus habitantes.

Em seu livro “Who Can You Trust”, ainda não traduzido para o português, a autora Rachel Botsman discute o valor da confiança em um mundo de trocas cada vez mais anônimas, devido à internet. A autora dedica um capítulo inteiro para o sistema de crédito chinês e levanta a discussão em torno da legalidade do sistema e as consequências dele para o cidadão.

Rachel chama atenção para o fato de que quem possuir uma pontuação baixa poderá ter os aspectos mais básicos da sua vida impactados, como a escolha das escolas às quais seus filhos poderão enfrentar ou mesmo a compra de passagens aéreas. Além disso, o sistema prevê uma pontuação “hereditária”, ou seja, o número de pontos dos pais poderá influenciar na pontuação dos filhos, antes mesmo desses terem idade suficiente para fazer sua primeira compra.

Ainda não é claro, no entanto, a perspectiva dos chineses sobre o novo sistema. Enquanto muitos já se inscreveram voluntariamente para participar dos testes do programa, há ainda quem diga que a população sofre pressão do governo para aceitar as condições. Seja como for, a expectativa é de quem em 2020 todos os cidadãos sejam cadastrados automaticamente no sistema e passem a fazer parte do grande “banco de dados da confiança” chinês.

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