Por que o Brasil foi mal no Pisa? Especialistas comentam

Os resultados negativos do Brasil na edição 2018 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), divulgados nesta terça-feira (3), podem não ser uma consequência apenas da falta de conhecimento por parte dos estudantes que fizeram a prova.

Segundo Naercio Menezes Filho, professor do Insper, em São Paulo, na edição de 2015, a maioria dos brasileiros nem sequer abriu todas as questões para respondê-las. Ele aponta que os estudantes podem desistir da resolução da prova porque encontram dificuldade no nível das perguntas, porque não são estimulados a se dedicar ao teste, ou porque não têm habilidades socioemocionais, como garra e resiliência.

Os dados do Pisa apontam que 68% dos estudantes não souberam o básico de matemática50,1% apresentaram baixo desempenho em leitura 55,3%, baixo desempenho em ciência.

Menezes e outros três pesquisadores publicaram, no ano passado, um estudo com base nos dados do Pisa 2015, a primeira edição em que a prova foi aplicada no Brasil totalmente no computador. Na edição mais recente, a mesma metodologia foi reaplicada.

“Nós descobrimos que os alunos brasileiros vão mal no Pisa em parte porque nem abrem as questões para respondê-las”, afirmou Naercio Menezes, do Insper, sobre os dados da edição 2015 da prova.

O que é o Pisa?

  • O Pisa é uma avaliação mundial feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em dezenas de países, com provas de leitura, matemática e ciência, além de educação financeira e um questionário com estudantes, professores, diretores e escolas e pais;
  • O resultado é divulgado a cada três anos – a edição mais recente foi aplicada em 2018 com uma amostra de 600 mil estudantes de 15 anos de 80 países diferentes, que representam cerca de 32 milhões de pessoas nessa idade;
  • A prova é aplicada em um único dia, é feita em computadores, e tem duas horas de duração. As questões são objetivas e discursivas. A cada edição, uma das três disciplinas recebe um tempo maior de prova;
  • No Brasil, 10.691 alunos de 638 escolas fizeram a prova, representando 65% da população brasileira que tinha 15 anos na data do exame;
  • Os resultados mostram que o Brasil caiu no ranking mundial em matemática e ciências, e ficou estagnado em leitura. A pior situação é em matemática, área em que o Brasil segue entre os dez piores do mundo;
  • Na América do Sul, a Argentina foi o país com o pior desempenho considerando as três provas.

Brasileiros x coreanos e finlandeses

No Pisa, a primeira hora da prova é dedicada às questões da disciplina “foco” naquele ano. Depois, os alunos fazem um intervalo, e retornam para as questões das outras duas disciplinas.

Segundo Menezes, “os blocos de questões são sorteados entre os alunos, de forma que o nível de dificuldade das questões é o mesmo ao longo da prova”.

No entanto, segundo ele, os dados mostram que a maior parte dos estudantes sequer vê todas as questões aplicadas antes do intervalo.

“O nosso estudo mostra que 60% dos alunos brasileiros nem abrem as últimas questões antes do intervalo da prova. Além disso, eles gastam muito tempo em cada questão em comparação com os alunos coreanos e finlandeses. Depois do intervalo eles tentam responder novamente, mas logo desistem” –Naercio Menezes, do Insper.

“É importante que a sociedade brasileira entenda por que os alunos brasileiros não tentam responder todas as questões do Pisa da mesma forma que os coreanos, chineses e finlandeses”, continuou ele.

Menezes aponta para uma série de possibilidades para responder essa diferença no computador dos estudantes brasileiros e de outros países com desempenho melhor.

“Pode ser que isso aconteça porque o Pisa não vale nota para os alunos e os brasileiros só se esforçam quando tem um retorno claro no curto prazo” , diz Naercio Menezes, do Insper.

“Pode ser que eles desistam da prova quando percebem que não conseguem responder as questões. Pode ser que os próprios professores não estimulem os alunos a responderem, porque não concordam com as avaliações. Pode ser que isso seja um sinal de falta de habilidades socioemocionais dos alunos brasileiros (resiliência, garra, conscienciosidade, etc..).”

Apesar de não ser possível descobrir o motivo exato para esse fenômeno, Menezes diz que “a conclusão do estudo é que o desempenho ruim dos alunos brasileiros no Pisa não reflete somente falta de conhecimento, mas também outros fatores”.

Informações: G1 e UOL

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