Os Mortos

Os Mortos

Esta notícia de 43.300 mortes no Brasil pelo vírus, contados pelas estatísticas, está visto que as pessoas têm mesmo de morrer. Mas verdades da vida se a gente começa a pensar muito nessas coisas passa a vida não pensando em mais nada. Estes impiedosos desconhecidos mortos, que agora guardam o silêncio, me olhem no jornal e sabem que não lhes posso fugir. Foi o acaso que causou estas mortes? Foram os políticos ou os chineses?

Eu não tenho nada a ver com estas mortes! Tu nada tens a ver com as mortes. Não importa: Estão mortos e existem mortos, devidamente registrados, contados e catalogados! No jornal é uma notícia fria como a tristeza do mundo.

Mas este silêncio dos mortos é tão pesado e tenso que eu percebo que acima desses intranquilos ruídos do tráfego das ruas da cidade, acima de algumas palavras que me disserem, ou de ternura, ou de aborrecimento, acima dos diurnos ou noturnos sons da vida, e das músicas das lives na TV, e das palavras de estranhos, perdidas nas esquinas, e de minha própria voz, acima estará esse silêncio pesado. Estará sobre tudo como pesada nuvem pardo – escura tapando o céu de horizonte a horizonte, grossa, opressora, trasformando o sol em um pesado mormaço.

Os sons e as vozes da vida adquirem um eco sob essa tampa de nuvens grossas, pois essa nuvem é morta e está sobre todas as coisas. Estes 43.300 pares de olhos foscos me olham imóveis, acusadores, obstinados. A força da vida – sabei,ó mortos – a força da vida mais mesquinha é um milagre de todo dia. Eu não tenho culpa de nada,eu não tenho culpa nenhuma!

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe semanalmente no site www.osollo.com.br.

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