OMS visita laboratório de morcegos chinês centro da ‘conspiração’ sobre a covid-19

Uma equipe de investigadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) visita um laboratório em Wuhan nesta quarta-feira, 3 de fevereiro, que tem sido o foco de conspirações e especulações sobre a origem da pandemia de coronavírus.

Os investigadores da OMS começaram a pesquisa na cidade chinesa na semana passada, após uma quarentena de 14 dias e atrasos burocráticos. O trabalho da equipe está sob intenso escrutínio e pressão política, tanto da China quanto do exterior.

Poucos lugares estão tão envolvido em polêmicas quanto um laboratório administrado pelo Instituto de Virologia de Wuhan, onde funcionários do governo do ex-presidente Donald Trump sugeriram, sem mostrar evidências, ter sido a origem do coronavírus.

O laboratório em questão, associado à Academia de Ciências Chinesa, é o único na China continental equipado para o mais alto nível de biocontenção, conhecido como Nível de Biossegurança 4 (BSL-4).

Laboratório de Wuhan é liderado pela ‘mulher morcego’ da China

O laboratório de Wuhan foi criado após a epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS), que passou pela China e por outras partes da Ásia em 2002 e 2003.

Em particular, a equipe do laboratório de Wuhan, liderada pela virologista Shi Zhengli, conhecida como a “mulher-morcego” da China pelos anos de expedições de caça ao vírus em cavernas de morcegos, concentrou-se em coronavírus transmitidos por morcegos, exatamente o que se confia ter causado a atual pandemia.

Os morcegos são um importante reservatório de vírus e embora não os sofram por causa deles graças a uma resistência natural, são portadores conhecidos de muitos patógenos infecciosos, devastadores para os humanos, incluindo Ebola, raiva, SARS e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS).

O consenso científico atual é que o SARS-Cov-2, o vírus por trás da pandemia covid-19, também evoluiu em morcegos e se espalhou para os humanos, potencialmente tendo um hospedeiro animal intermediário entre essas duas espécies.

Isso torna o trabalho de laboratórios como o de Wuhan ainda mais importante. Entender como os vírus evoluem e se espalham dos morcegos para os humanos poderia permitir aos cientistas combater infecções futuras. No entanto, também significa que esses laboratórios podem hospedar uma série de patógenos potencialmente mortais, e devem ser extremamente cautelosos ao garantir que eles não escapem.

Embora a administração vivamente anti-China de Trump sugerisse que isso poderia ter acontecido em Wuhan, a maioria dos especialistas discorda.

Em um artigo publicado na revista Nature Medicine, em março passado, os principais especialistas em doenças infecciosas dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália disseram, citando análises comparativas de dados genômicos, que era “improvável” que o novo coronavírus tivesse surgido de um laboratório.

“Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositalmente manipulado”, disse o estudo.

Peter Daszak, membro da equipe da OMS, atualmente em Wuhan e presidente da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos para saúde ambiental, disse estar confiante sobre os protocolos de segurança do laboratório.

“Eu conheço esse laboratório muito bem”, disse Daszak, que trabalhou em estreita colaboração com a “mulher morcego” no passado.

“É um bom laboratório de virologia, que estava fazendo um bom trabalho e chegou perto de descobrir qual seria o próximo coronavírus relacionado à SARS. Mas, até onde eu sei, não o encontrou. Infelizmente, talvez tenha conseguido chegar tão perto, que as pessoas agora, ironicamente, começam a acusá-lo”.

Há afirmações sobre o poder limitado da equipe da OMS para descobrir novos fatos durante as inspeções na China, principalmente porque Pequim começou a empurrar teorias alternativas, às vezes completamente infundadas sobre a origem do vírus, mas Daszak disse que o relacionamento com a liderança do laboratório significa que eles terão tudo de que precisam.

“Já falamos com (Shi) Zhengli, e ela está à disposição. Espero que tenhamos o mesmo nível de abertura e transparência”, disse ele.

No entanto, Daszak expressou preocupação sobre a investigação ser tardia demais para encontrar informações importantes em Wuhan, onde acredita-se que o surto inicial do vírus tenha ocorrido.

“Poderíamos estar aqui há um ano fazendo um bom trabalho”, disse Daszak, embora tenha acrescentado que, “estamos obtendo um bom acesso… o tempo todo, estamos nos empenhando para descobrir mais e mais informações sobre cada caminho possível”.

Visita ao mercado de frutos do mar em Wuhan

No domingo, a equipe da OMS visitou o agora desinfectado e fechado mercado de frutos do mar de Huanan, onde um grupo de casos semelhantes à covid-19 foi detectado pela primeira vez no final de 2019 e onde se acredita ter sido a origem do surto.

Peter Ben Embarek, líder da equipe da OMS e especialista em segurança alimentar, disse à CNN que “mesmo que o local tenha sido desinfectado até certo ponto, todas as lojas estão lá – e o equipamento está lá. Isso dá uma boa ideia do estado do mercado em termos de manutenção, infraestrutura, higiene e escoamento de mercadorias e pessoas”.

A equipe conseguiu falar com moradores e trabalhadores, disse Embarek, acrescentando que era muito cedo para tirar conclusões.

“Está claro que algo aconteceu naquele mercado”, disse Embarek. “Mas também pode ser que outros lugares tenham tido o mesmo papel e aquele só foi escolhido porque alguns médicos foram espertos o suficiente para relacionar os casos”.

Outro membro da equipe da OMS, a professora Thea Fisher, disse que ficou surpresa com a “utilidade” de ver um mercado que esteve deserto no ano passado.

“Tivemos alguns profissionais de saúde pública muito bons conosco, que estavam realizando algumas amostragens ambientais no mercado… explicando-nos exatamente de que parte do sistema de ventilação eles tiraram as amostras”.

Daszak, que é especialista em zoonoses – doenças que podem ser transmitidas de animais para humanos, disse que a visita ao mercado foi “um ponto fundamental da viagem”.

“Conseguimos ver o lugar onde cada pessoa infectada naquele mercado tinha uma barraca, deu para te uma ideia nova de como é a infraestrutura”, disse ele. “Era um lugar bagunçado, lotado e movimentado? Isso foi extremamente útil”.

Toda a equipe da OMS advertiu que quaisquer descobertas da investigação atual devem levar um tempo considerável, e falou também da necessidade de “administrar as expectativas”, mesmo que os olhos do mundo estejam sobre elas.

Fonte: CNN

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