O ser humano que deveríamos ser

“Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1.14)

O que desafia a mente humana na fé cristã, não são seus princípios ou os mandamentos. Por mais que amar os inimigos e perdoar os que nos fazem mal seja uma pancada diretamente no queixo de nosso orgulho e senso natural de autoproteção; por mais que negar a si mesmo seja uma condição desafiadora demais para nós; e por mais que as afirmações do Evangelho revelem-se uma completa contradição de nossas lógicas e senso comum, o grande desafio é crer que Deus se tornou gente e viveu por um tempo em meio à humanidade. E cremos verdadeiramente se sofremos a implicação dessa fé.

Crer que Deus se fez gente é crer que, por meio de sua encarnação, tivemos na história a existência de um ser humano que representa tudo que deveríamos ser. Logo, vendo-o, podemos nos avaliar e reorientar nossa vida pela dele. Visto que jamais alcançaremos de uma só vez tudo sobre Jesus, precisaremos nos ajustar diariamente, na medida em que Cristo for se tornando mais claro para nós. Esse conhecimento quer nos levar a mudar de vida é o que significa verdadeiramente seguir a Cristo. Isso é ser discípulo de Jesus.

Deus nos amou e se fez um de nós para nos salvar e essa salvação inclui nos salvar de nós mesmos. Da pessoa que nos tornamos e não deveríamos. Das atitudes e posturas que desenvolvemos, e não deveríamos. Ele se tornou um de nós e isso nos possibilita perceber o quanto somos o que não deveríamos ser. Aquele que tem todo poder amou, serviu, perdoou, escolheu os menores e mais pobres, acolheu viúvas, cobradores de impostos, samaritanos e samaritanas. Ele escolheu como amigos íntimos homens bem limitados. Ele os amou e o que lhes ensinou não foi complexo, mas foi radical. E exigiu deles a vida inteira para aprenderem de fato.

Somos cristãos e as vezes achamos que somos dos bons e nos orgulhamos disso. Até defendemos nosso jeito de ser cristão como se fosse o padrão fiel do seguimento a Jesus. Nossas credenciais são coisas interessantes: o tempo que temos na igreja, o quanto já sabemos sobre as histórias e textos bíblicos e a cultura religiosa que nos formatou, definindo nosso jeito de lidar com a vida e preferências litúrgicas. Achamos tudo isso sagrado. Mas nem mesmo percebemos quando acolhemos atitudes e sentimentos antagônicos a Cristo. Como precisamos de ouvir a voz do Espírito!

O maior desafio da fé cristã para o ser humano é crer verdadeiramente a afirmação de que Deus, por amor, tornou-se um de nós, viveu entre nós, para revelar-se a nós e morrer por nós. Nós o matamos porque ele não se encaixava como Deus e nem como ser humano aos nossos olhos. Ele nos revelou o Deus que ignorávamos e ainda ignoramos. Ele nos revelou o ser humano que deveríamos ser e resistirmos a ser. Se entendermos isso, haverá mais humildade, quebrantamento e inquietação em nós. Inquietação quanto ao tipo de ser humanos que somos e sobre o lugar do amor em nossa vida. Se cremos em Cristo, então isso precisa produzir consciência e autocrítica em nós!

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