O refúgio

Na antevéspera do Natal, notícias da prisão de Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, a feia história da deputada Flordelis, a corrupção no tribunal de justiça da Bahia, com o afastamento de desembargadores e juízes, e o clima desta segunda onda do coronavírus, que são notícias profundas e dolorosas repletas de ecos de mortes e corrupção, de soluços e de sombras. É uma realidade áspera, apesar da vasta felicidade difusa deste Natal.

Tenho meu refúgio escrevendo e tomando uma taça de vinho. Brindando este clima natalino, penso que nosso controle sobre tudo é insignificante; o vento penetrando no seu casaco, uma pequena comunidade de bactérias escondida no seu hambúrguer.

Sair por uma porta, inspirar ou amarrar o sapato é arriscar a vida. Você se agacha e uma bala invisível e silenciosa pode passar zunindo a milímetros da sua cabeça, ou talvez ela se aloje na sua garganta, foi rápido, tinha cinquenta anos, um grande advogado, pessoa humana de uma sensibilidade rara, morava perto, foi fazer um favor a amigos e despencou para a morte, num acidente banal; há um leve aperto de garganta com a lembrança, mas o incontrolável sempre prorrompe; muitas vezes quando menos se espera, como um pesadelo, como neste ano de 2020 sem que ninguém o queira.

Há momentos em que não queremos acreditar na pandemia, na sua loucura, momentos em que temos piedade do sofrimento a tantas famílias, parece até que o mundo pouco a pouco desistiu dos familiares dos mortos pela covid, já que neste Natal nestas casas a tristeza é grande e o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podemos defender, nosso mundo familiar seja de gratidão por termos saúde.

Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios, que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um pesadelo.

Nós somos frágeis, então que este Natal traga a nostalgia do mundo puro da infância, um grande mundo encantado e neste mundo não há mortes só mágia e amor.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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