Morre o artista plástico Frans Krajcberg, aos 96 anos

 

Casa na árvore no sítio em que vivia em Nova Viçosa. Foto Rede Brasil Atual

O artista plástico Frans Krajcberg morreu nesta quarta-feira, aos 96 anos. Ele estava internado há um mês no Hospital Samaritano, na Zona sul do Rio. O quadro de saúde do artista era considerado frágil, ele era cardíaco e ele chegou à capital fluminense com várias infecções. Na Bahia, onde vivia, ele foi hospitalizado em Teixeira de Freitas, cidade próxima a Nova Viçosa, onde vivia.

O corpo do artista será cremado no Rio. Como contou Marcia Barrozo do Amaral, galerista de Krajcberg, as cinzas serão levadas até o Sítio Natura, em Nova Viçosa.

Conhecido principalmente por suas esculturas feitas a partir de troncos e raízes de árvores calcinadas pelos incêndios que derrubam densas áreas verdes para transformá-las em pastos, Krajcberg sempre foi um artista engajado. Sua obra transitou pela pintura, escultura, gravura e fotografia.

Uma de suas esculturas

Brasileiro desde 1957 (“A imprensa insiste em dizer que sou polonês naturalizado brasileiro; não sou. Sou brasileiro”, observa), ele nasceu em Kozienice, Polônia, em 11 de abril de 1921. Antes da guerra, estudou engenharia e artes na Universidade de Leningrado. Chegou aqui em 1948, depois de lutar na Segunda Guerra, onde toda a sua família, de origem judia, foi dizimada no Holocausto.

A exuberante natureza do novo país lhe deu o refúgio que buscava. Em 1951, participou da 1ª Bienal Internacional de São Paulo com duas pinturas. Residiu por um breve período no Paraná, isolando-se na floresta para pintar. Em 1956, mudou-se para o Rio de Janeiro, dividindo o ateliê com o escultor Franz Weissmann (1911-2005). Dois anos depois, revezava-se entre o Rio, Paris e Ibiza.

Em 1972, fixou residência em Nova Viçosa, no Sul da Bahia, onde viveu até o fim da vida, no Sítio Natura, cercado pela única porção de Mata Atlântica remanescente na região, e que tomou para si a tarefa de manter intacta. Krajcberg estava construindo um museu para abrigar suas obras, que calculava serem em torno de 300. Segundo Marcia Barrozo do Amaral, o museu está próximo de ficar pronto, faltando apenas dois pavilhões.

— Lá é o lugar que ele adotou para viver. Tudo no sítio tem o dedo dele. É um terreno muito grande, tem a Casa da Árvore, que ele gostava de chamar de “Casa do Tarsan”. Ele vivia nela. Ao lado, ficam os dois pavilhões que constituem o museu — explicou Marcia.

Apesar de o projeto estar próximo de ser realizado, assim como Krajcberg desejava, em vida ele reclamava da falta de apoio.

— Lá no Sul da Bahia não me dão nem bom dia. Não sei o que vou fazer. Venho trabalhando sozinho, não sei se tenho mais forças — dizia, com a mágoa ampliada pelos cinco assaltos que sofreu: num deles, levaram o cordão, que era a única lembrança que guardava de sua mãe (depois do último roubo, três policiais militares revezavam-se na segurança da propriedade e do artista).

Seu trabalho com escultura, iniciado em Minas Gerais, intensificou-se na Bahia. Viajava constantemente para a Amazônia e Mato Grosso e fotografava os desmatamentos e queimadas, revelando imagens dramáticas. Dessas viagens, retornava com matéria-prima natural para suas obras.

 

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