Limpe seu nome: troca de dívida é a medida mais indicada para devedores

Maioria das dívidas é de até R$ 2.500. Mulheres entre 25 e 49 anos são a faixa mais endividada do país

Dados divulgados, ontem, pelo SPC indicam que 55,5% das pessoas que estão negativadas neste cadastro são mulheres e que 81% têm dívidas de até R$ 2,5 mil. O valor das dívidas indica que é possível rapidamente limpar o nome e deixar de passar constrangimentos como os enfrentados pelo aposentado Joselito Queiros, 56 anos. Há mais de cinco anos ele passou dois cheques sem fundos e desde então não consegue mais comprar a crédito. Este tipo de compra passou para a responsabilidade da esposa, a também aposentada Maria de Fátima Souza, 56 anos.

No entanto, problemas de saúde a levaram a contrair um empréstimo de R$ 1 mil que não teve condições de honrar e seu nome também acabou sendo negativado nos cadastros de restrições ao crédito. Ontem, os dois estavam na sede da Câmara de Dirigents Lojistas de Salvador (CDL – Salvador) para levantar o total das dívidas acrescidas de juros para tentar remediar a situação. Mas reclamavam dos juros altos, da falta de orientação sobre a melhor forma de limpar o nome e da intransigência dos credores.

“Quero limpar meu nome, mas o banco (Dacasa Financeira) não quer receber. Ele não quer abrir mão dos juros e a parcela é muito alta para mim. Se pagar o que eles querem eu vou comer o quê?”, queixou-se a aposentada. Hoje, com todos os encargos, o débito em nome de Maria de Fátima está em R$ 2.550 dividido em 15 parcelas de R$ 170. Ou seja, R$ 1.550 a mais que o valor que pegou emprestado para pagar os médicos.

Quando questionado sobre o que pretendia fazer, o casal silenciou, demonstrando desconhecimemto sobre mecanismos do sistema de crédito brasileiro. Coube ao marido tentar quebrar a sensação de desamparo que transmitiam: “Ter nome negativado é ruim. Mas acordo tem de ser bom. As pessoas têm de ter condições de pagar os juros”, disse ao mesmo tempo em que puxava a esposa pelo braço para pôr fim à entrevista.

Troca de dívida

O próprio SPC Brasil, em seu site e em cartilhas distribuídas a consumidores, tem uma recomendação útil aos inadimplentes de todo o país, a troca de dívida. A medida consiste em transferir os débitos em modalidades de empréstimos de dinheiro a juros mais alto para aquelas que cobram taxas menores.

Cálculo da entidade mostra que esta troca pode gerar uma economia de até R$ 800 na comparação entre cartão de crédito e empréstimo consignado em um débito de R$ 2 mil dividido em 12 vezes. Mas para a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), esta economia pode ser bem maior.

A pedido da reportagem, a Anefac fez simulações do total a pagar de um empréstimo de R$ 2,5 mil dividido em 12 e 24 parcelas. No final, a comparação entre consignado – com menor taxa de juros, média de 1,9% ao mês – e cartão de crédito rotativo – juros mais alto, média de 9,37% ao mês – revelou uma economia de R$ 2.491,60 em 12 vezes, ou R$ 5.302,60 quando a negociação é para pagamento em 24 prestações.

Organização

A segunda vantagem da troca de dívida é que ela permite uma maior organização da vida financeira ao reunir toda a dívida em um só lugar. A dica, ainda segundo Luiza Rodrigues, é somar os débitos dispersos em diferentes cartões, carnês, e contas de consumo e fazer um empréstimo no valor total destes débitos – de preferência na modalidade consignado – para quitá-los de uma vez só.

Outra dica dada pela economista do SPC é que na hora de fechar o novo contrato de empréstimo, o consumidor tenha em mente que a soma de todas as suas parcelas – carro, imóvel, mensalidade escolar, prestação do empréstimo, etc. – não comprometa mais que 30% de sua renda. “Essa regra é importante para não comprometer a capacidade de pagamento do consumidor”.

O objetivo é, a partir do valor máximo que se pode pagar, descobrir o número de prestações a ser contratado. É preciso lembrar que quanto menor for o número de parcelas, menor será o total a ser pago.

Soma de pequenas compras leva ao descontrole

O perfil da dívida do cadastro do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostra que parte da população brasileira não tem a cultura de se planejar financeiramente. “A maioria das dívidas (81%) está em um valor até R$ 2,5 mil. Ou seja, a soma de pequenas compras leva ao descontrole do orçamento e à inadimplência”, comentou a economista da entidade Luiza Rodrigues.

Os dados do SPC indicam ainda que os maiores endividados estão na faixa etária dos 25 aos 49 anos. E que as mulheres devem mais que os homens, 55,5% contra 44,5%. “O que observamos é que as mulheres usam mais o CPF para compras da família. E que é entre 25 e 49 anos que as pessoas mais acumulam gastos, pois estão comprando carro, imóvel, escola e saúde dos filhos”, explicou a economista.

O estudo divulgado, ontem, pelo SPC indicou que houve uma queda de 4,4% no índice de inadimplência em comparação entre dezembro de 2013 e o mesmo do ano anterior.

Restrição

Luiza Rodrigues atribui esta queda à maior restrição no acesso ao crédito a partir das novas regras impostas pelo governo e ao aumento das taxas de juros, medidas que levaram bancos e financiadores a serem mais cuidadosos na hora de emprestar dinheiro.

Apesar disto, a economista falou que o perfil dos inadimplentes praticamente se manteve estável entre os dois últimos anos. “Historicamente, o perfil das dívidas muda lentamente”, justificou.

Ela afirmou ainda que o cenário atual indica um baixo espaço para o aumento do endividamento das famílias, o que pode se refeltir na queda dos índices de consumo da economia brasileira neste ano.

Inadimplência fecha 2013 em queda, aponta a Serasa

A inadimplência caiu 2% no ano passado, segundo o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor divulgado ontem. A queda anual foi a primeira em toda a série histórica, iniciada em 2000. Na comparação de dezembro de 2013 com o mesmo mês de 2012, o recuo foi de 6,5%, o sétimo mensal seguido.

Entre as razões que colaboraram para o recuo da inadimplência ao longo de 2013, estão o baixo desemprego, o mercado de crédito mais restrito, consumidores mais preocupados com a saúde financeira e um efeito estatístico – 2011 e 2012 foram marcados por forte aumento nas taxas de inadimplência. “A inadimplência está caindo, mas ainda tem muito para cair. A queda de 2013 foi sustentada pelo efeito estatístico por causa dos dois anos anteriores e por fatores conjunturais, como o baixo desemprego”, afirmou Luiz Rabi, economista da Serasa.

 

 

 

Fonte: Flávio Oliveira/Correio

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