Governo Dilma liga alerta após mais de 2 milhões em manifestações e anuncia mudanças

Cerca de 2 milhões de pessoas foram às ruas ontem para protestar contra o governo Dilma em mais de 160 cidades. Vestidos com as cores da bandeira, os manifestantes fizeram o governo ligar o alerta e anunciar pacote “anti-corrupção”

Convocado por setores insatisfeitos com o governo federal, uma multidão tomou as ruas de dezenas de cidades do país, ontem, para protestar contra a presidente Dilma Rousseff (PT) e levantar bandeiras bastante diversas, que iam desde o pedido de moralização da política, com o fim da corrupção e do aumento de impostos e tarifas até a defesa de um impeachment da líder nacional ou uma intervenção dos militar após 30 anos de redemocratização.

As marchas reuniram cerca de 2 milhões de pessoas, segundo levantamento da Polícia Militar em pelo menos 160 municípios. Os protestos tiveram um perfil pacífico, em geral, sem registro de confrontos violentos entre opositores e partidários do governo.

O maior ato ocorreu na Avenida Paulista, em São Paulo, que segundo a Polícia Militar local teve mais de 1 milhão de participantes. Em nota, a corporação afirma que levou em conta fotografias aéreas e a extensão da Avenida Paulista e de outras ruas.

O discurso hegemônico da manifestação pedia o impeachment da presidente Dilma e acusava o PT de ser responsável pelo escândalo de corrupção na Petrobras.

Durante os protestos, Dilma reuniu um grupo de ministros para acompanhar a situação no Palácio da Alvorada, em Brasília. No final da tarde, dois dos chefes de pastas foram destacados para um pronunciamento oficial sobre as manifestações e classificaram os atos como “democráticos” e “longe de golpismos”. Houve reações.

Na Avenida Paulista, cartazes fazendo menção à Operação Lava Jato – que apura o desvio de cerca de R$ 10 bilhões da estatal e o repasse de suborno a membros do PT, PMDB, PP, PSB, PSDB E PTB – eram vistos em torno dos carros de som dos grupos Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua, Revoltados Online e do Partido Solidariedade. Todos eles fizeram parte da mobilização que levou a multidão para as ruas, utilizando, principalmente, as redes sociais.

O movimento SOS Forças Armadas também foi para a avenida com três carros de som e faixas que pediam a intervenção militar. “Otário pede impeachment, patriota exige intervenção constitucional”, dizia um cartaz.

Incidentes

Em episódios isolados, 20 integrantes do grupo nacionalista “carecas do subúrbio” foram detidos com explosivos após um casal ser atingido por um rojão. Ninguém se feriu.

Em Salvador, próximo ao Barra Center, no bairro da Barra, onde as manifestações ocorreram, um homem com uma bandeira vermelha, que dizia apoiar o PT, foi vaiado por manifestantes. Porém, as hostilidades pararam por aí. Na capital baiana, cerca de 10 mil pessoas participaram do ato.

No Rio de Janeiro, a maior concentração ocorreu no final da manhã, na orla de Copacabana, onde mais de 15 mil manifestantes fecharam a Avenida Atlântica, segundo a PM. Os organizadores, no entanto, disseram ter reunido ao menos 50 mil pessoas.

Em Brasília, 40 mil pessoas foram à Esplanada dos Ministérios desde a manhã, em frente ao Congresso Nacional, segundo a PM. No fim do dia, a polícia lançou dezenas de bombas de gás lacrimogêneo contra manifestantes que permaneceram protestando.

Policiais alegaram que foram agredidos após impedirem que manifestantes entrassem no prédio do Congresso. Pelo menos uma pessoa ficou ferida e ao menos três foram detidas. Houve depredação de cestos de lixo nos ministérios da Integração Nacional e da Agricultura.

Em Minas Gerais e Pernambuco, onde, assim como na Bahia, Dilma teve maioria de votos nas últimas eleições, também houve grande adesão aos protestos. Em Belo Horizonte, cidade natal da presidente, o ato convocado por movimentos como o Vem Pra Rua e outros formados especialmente para esse protesto chegou a ter pico de 24 mil, de acordo com a PM.

No Recife, cerca de 8 mil pessoas foram, literalmente, atrás do trio elétrico, durante a manifestação na orla da praia de Boa Viagem, e houve discursos inflamados contra o governo do PT.

Apartidário

Apesar do viés antigoverno do protesto, os partidos e políticos da oposição quase não tiveram espaço nos carros de som e não alcançaram protagonismo. O deputado Paulinho (SD-SP), da Força Sindical, foi vaiado pelos manifestantes e não conseguiu discursar no carro de som do próprio Solidariedade.

No Rio, o também deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que na quinta-feira protocolou um pedido de impeachment na Câmara contra Dilma, foi vaiado ao subir em um carro de som para discursar.

Ministros anunciam pacote contra corrupção e geram novo panelaço

Quando os protestos nas ruas de diversas cidades do país já começavam a dissipar, por volta das 19h de ontem, os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, foram escalados pelo governo para fazer um balanço das manifestações e revelar que a presidente Dilma irá anunciar, nos próximos dias, um conjunto de ações contra a corrupção.

“É por isso que o governo, que tem uma clara postura de combate à corrupção, irá anunciar algo que já era uma promessa eleitoral da presidente Dilma Rousseff, que é um conjunto de medidas de combate à corrupção e à impunidade”, informou Cardozo.

Segundo ele, essas medidas ainda não tinham sido enviadas ao Congresso porque necessitavam de ampla análise técnica e jurídica, inclusive porque algumas delas não podem ser de iniciativa do Poder Executivo. No entanto, o ministro da Justiça disse que a formulação delas já está em ponto avançado e, por isso, será possível divulgá-las em breve. Tanto ele como Rossetto avaliaram, em nome do governo, as manifestações como “democráticas” e “longe de golpismos”.

Durante o pronunciamento dos ministros, mais uma vez, foram registrados os chamados panelaços em diversas cidades do país, a exemplo de São Paulo e Belo Horizonte – situação que já havia ocorrido no domingo anterior, durante um pronunciamento de Dilma em cadeia nacional. Em Brasília, a presidente montou um “gabinete de crise” para acompanhar as manifestações, do qual participaram os ministros Cardozo e Rossetto, horas antes.

Do encontro no Palácio da Alvorada também participaram os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, das Relações Institucionais, Pepe Vargas, e da Defesa, ex-governador da Bahia Jaques Wagner. Um dos pontos discutidos no encontro, e que será colocado no pacote anti-corrupção a ser proposto pela presidente, será o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais.

A proposta não tem consenso no Congresso e deve enfrentar resistências, como por exemplo, do PMDB. Já o PT é o partido que defende com mais ênfase a medida. Os ministros afirmaram na coletiva que o governo está aberto ao diálogo e quer negociar com os partidos da base aliada, mas também com a oposição e a sociedade, as próximas ações para a reforma política.

Fonte: Correio, com informações das agências


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