Evergrande: como uma incorporadora chinesa em crise gerou pânico nos mercados

Temor de investidores é que a gigante do setor imobiliário anuncie um calote, o que poderia respingar no resto do mundo

Prédios da Evergrande no distrito de Foshan Nanhai Gaoxin, em Guangzhou
Prédios da Evergrande no distrito de Foshan Nanhai Gaoxin. Foto: CNN

Em determinados momentos, o mercado financeiro se assemelha a uma pilha de latinhas. Dependendo de onde você tira uma latinha, a torre se desequilibra e pode até desabar. Essa analogia foi usada pelo economista Miguel Daoud, em entrevista à CNN, para explicar o cenário que envolve a gigante imobiliária chinesa Evergrande, e que vem refletindo nas principais bolsas de valores nos últimos dias.

O conglomerado tenta lidar com um passivo que passa dos US$ 300 bilhões (equivalente à toda reserva em moeda estrangeira detida pelo Brasil), e sem caixa suficiente para pagar os credores. O temor do mercado é que a companhia anuncie um calote, e que isso provoque um efeito cascata dentro da segunda maior economia do mundo, o que poderia respingar no resto do mundo.

“A China é a segunda maior economia do mundo, e o mercado financeiro é todo interligado. Há investidores e grandes fundos que detém parte dessas dívidas”, explica Daoud.

Entre as baixas do principal índice da bolsa paulista, figuravam a mineradora Vale e as siderúrgicas Usiminas, Gerdau e CSN, impactadas pela expectativa de queda no preço do minério de ferro, usado na fabricação do aço. O minério já acumula queda superior a 40% neste ano, sobretudo, por conta da menor demanda chinesa.

Esse movimento está diretamente ligado à desaceleração dos negócios da Evergrande, responsável por grande parte da entrega de imóveis populares a chineses. Atualmente, há cerca de 1,6 milhão de imóveis sendo construídos pela chinesa, que é a maior incorporadora privada do país.

Estimando o avanço no excedente de minério de ferro para o próximo ano, o UBS chegou a cortar na sexta-feira sua recomendação para a ação da Vale de ‘compra’ para ‘venda’.

Novo “efeito Lehman”?

Nesse cenário de aversão ao risco, não falta quem estabeleça paralelos com a crise financeira de 2008, que, a partir da falência do banco Leman Brothers, infectou as principais economias do mundo, culminando em um dos piores cenários desde a chamada Grande Depressão, em 1929.

Ninguém quer viver isso de novo, o que faz com que o efeito manada acabe dando o tom por ora.

“Muitas pessoas estão vendendo ações sem saber ao certo o motivo da venda. Mas como estão todos vendendo, também querem vender. Esse ‘efeito manada’ faz com que a profecia se realize”, diz Daoud.

Apesar dos temores generalizados, porém, o evento de agora é muito diferente do vivido há 13 anos, segundo o estrategista-chefe da Inversa, Rodrigo Natali, para quem não deve haver um contágio mais grave nos principais mercados.

“Primeiro porque quando o Lehman fechou em Londres, onde a regra obrigava bancos em falência a encerrarem as operações imediatamente e por onde passava grande parte das liquidações internacionais, o sistema financeiro travou. Foi um problema muito mais de liquidez do que de prejuízo. O grande problema não foi que as ações caíram tanto que deu prejuízo nos acionistas. Foi que travou de uma hora para outra. E isso não está acontecendo agora”, diz.

Em outras palavras, a Evergrande não está no meio de todo o sistema de liquidação financeira, como estava o Lehman Brothers. E grande parte da exposição aos seus ativos se concentram em terras chinesas.

Crise esperada

O segundo motivo pelo qual não cabe a comparação é que a imobiliária chinesa está morrendo aos poucos já há algum tempo, diz Natali.

“De 2017 até o começo de 2021, a ação já havia caído 50% da máxima. Agora, está em 85% da máxima. A dívida já está com um desconto gigante, precificando essa restruturação [chamada de calote] há um tempo”, diz.

O temor dos investidores ficou maior agora, segundo ele, pois a empresa se aproxima do vencimento de importantes obrigações com investidores. Em 23 de setembro, tem que pagar US$ 83,5 milhões em juros e, em 29 de setembro, US$ 47,5 milhões.

Além disso, Natali destaca que, no limite, o governo chinês deve intervir para aliviar o cenário. “Os bancos chineses são unidos umbilicalmente com o governo chinês. Se ele quiser ajudar, compra a dívida, inclusive consegue terminar as obras das casas, o que é o grande problema local”, diz.

Vale lembrar também que 2022 é um ano importante para o calendário político local, ressalta Paolo di Sora, sócio-fundador e estrategista-chefe da RPS Capital, já que o atual presidente da China, Xi Jinping vai tentar o terceiro mandato.

“É a primeira vez que um líder chinês tenta um terceiro mandato, portanto, ele vai querer uma economia pujante, forte num ano importante para o partido comunista”, diz.

“Portanto, não achamos que o PIB chinês vai entrar em colapso ou que veremos uma crise sistêmica no mercado chines ou no global”.

E o Brasil com isso?

Isso não significa, no entanto, que todos sairão ilesos. Além dos investidores que podem amargar prejuízos, devem sentir mais forte o baque países mais expostos ao ritmo da economia chinesa, como é o caso do Brasil, um dos seus mais importantes parceiros comerciais.

“Um cenário mais desafiador para a China significa um cenário mais desafiador para o mercado de emergentes e, consequentemente, para o Brasil”, diz Paolo di Sora.

“Junto a isso, no Brasil, se adiciona a crise econômica local, a crise politica, inflação, juros, PIB, cena fiscal, o que não ajuda o país”, diz.

Fonte: BBC Brasil

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