Entre o livro e a vida

“Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?” (Lucas 10.25)

Esta é uma pergunta muito importante e que foi feita a Jesus, mais de uma vez. Lucas narra no capitulo 18 que certo homem importante, que Mateus registra como sendo um jovem rico, também fez a mesma pergunta ao Mestre. O perito na lei a fez com o propósito de testar a Jesus. Como devemos entender esse propósito? Os líderes religiosos estavam sempre tentando confirmar que Jesus era uma farsa. Seu modo de compreender Deus e a vida os incomodava. Para eles, faltava a Jesus a clareza das regras, dos pesos bem definidos com os quais se deveria medir e pesar as pessoas. Outro problema é que Jesus dava pouco valor às tradições, ao sistema religioso que dominava a vida no templo. Ele não se enquadrava e desrespeitava a tradição dos anciãos que sustentava os privilégios dos líderes e era um peso para o povo. E então o perito se aventurou em mais um teste para ver se colocava um freio em Jesus.

Perguntar a um rabino o que era preciso para herdar a vida eterna, tinha um sentido mais profundo do que uma orientação para a vida devocional. Tratava-se de como aquele rabino interpretava a Torá. O perito estava perguntando a Jesus se sabia, interpretando a Torá, dizer os caminhos pelos quais uma pessoa poderia alcançar a condição de ser aprovada ou recebida por Javé. O salmo 15 levanta a mesma questão: “Senhor, quem habitará no teu santuário? Quem poderá morar no teu santo monte?” E a resposta do salmo aponta um tratado ético para a vida, que envolve atitudes justas, misericórdia e bondade. Em outros momentos Jesus falou sobre a vida com Deus dizendo: “Venham a mim” (Mt 11.28); “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim!”(Jo 14.6). Em Lucas 10, Ele aceita a provocação e vai para o terreno da interpretação da Torá e responde ao perito na lei.

A Lei manda amar. A Deus e ao próximo. E o perito sabia disso. Mas saber o que está escrito não significa compreender ou viver o que está escrito. Jesus é muito didático, simples e direto: ele conta uma parábola ao perito na lei, como fazia com o povo. A atitude do samaritano é a resposta e o critério para se compreender a lei. O perito conhecia o texto, mas não amava às pessoas ou a Deus. Não é raro ser como ele: doutor no texto e iletrado na vida. Saber o que está escrito, mas não saber o que fazer. E não é possível entender o texto ignorando a vida, pois o texto foi feito para a vida! Por isso Jesus traz a vida para a conversa e, mostrando como se faz,  mostrando e apontando o samaritano, diz: “Vá e faça o mesmo”. De alguma forma é esse o dilema de todo crente: ficar entre o que está escrito e lidar com a vida e as pessoas! Doutores em Bíblia e iletrados na vida! E quando isso acontece, a falta de amor se estabelece. Somos capazes de citar o texto e incapazes de compreender, acolher, ter misericórdia e amar o próximo.

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