Em espírito e em verdade

“Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”. (João 4.24)

A fé cristã tem uma longa história. São dois mil anos de muitos acontecimentos. Nem todos eles foram benéficos, nem todos eles afirmaram o Evangelho. Muitos foram motivados por poder, foram pensados sob a perspectiva da ambição. A história, infelizmente, revela isso. E a história continua. Ainda hoje, para muitas vozes que anunciam o Evangelho, há muitas outras que anunciam um outro evangelho. Essas vozes estão misturadas. Para as muitas palavras, doutrinas, orientações, pregações, canções, que inspiram vida com Deus, há muitas outras que produzem engano espiritual. E tudo está misturado pelos muitos canais de distribuição e, às vezes, misturados no mesmo programa. Quando amparada pelo império, a fé cristã foi usada como uma plataforma de poder, recebeu e concedeu favores, desfrutou de hegemonia. Isso aconteceu por longo período e envolveu muitas partes importantes do planeta. Neste período, mais valeu-se do poder, do que do amor. Mais produziu ritos que adoração. Mais envolveu-se em descaminhos que fortaleceu a Mensagem da Cruz. Inegavelmente a história da religião cristã transmitiu um tipo de mensagem que fez, muitas vezes, convertidos a ela, a ela mesma! Mas nem sempre convertidos ao Evangelho.

A conversão ao Evangelho é conversão a Cristo e a Deus. Ela implanta em nós uma vida que vem de Cristo e realiza a obra de mudar a nossa vida. Ela nos torna incontrolavelmente interessados em conhecer a verdade, em confirmar o sentido da presença do Reino de Deus. Sem ela nos tornamos reféns de muito menos que o conhecimento de Deus. A Palavra de Deus para nós fica enclausurada nas letras da Bíblia. Conseguimos decorá-las, mas elas não nos revelam a Vida. Facilmente a Bíblia torna-se um objeto sagrado, e substitui Deus. Como se fosse uma arma, a usamos contra outros, quase nunca contra nós mesmos. Lembro-me da atividade bíblica muito comum no passado quando, perfilados, seguíamos os comandos: “Desembainhar a espada: um, dois, três!” Todos com as Bíblias na altura dos ombros ouvíamos o texto que deveríamos repetir e deveríamos localizar. Repetíamos e, ao comando tínhamos que localizar e ler. Quem primeiro encontrasse, vencia o duelo. Eu ganhei alguns. Mas não aprendi muito naquele tempo sobre os muitos versículos que encontrei e li. O exercício me possibilitou uma habilidade tão útil para minha vida quanto é hoje um diploma de datilografia.

Procurando entender as palavras de Jesus à samaritana, que lemos no texto de hoje, tudo isso me veio à mente. Nem Jerusalém, nem Samaria. Os templos não seriam decisivos na adoração. Assim como encontrar rapidamente um texto não me fez um bom cristão. A adoração, a conversão, a comunhão com Deus, a maturidade espiritual não resultará jamais de um método, de um programa. São experiências que somente se realizam com a participação do Espírito Santo. Quando promovidas por Ele, os aprendizados que produzem jamais se tornam obsoletos. Jamais perdem o sentido ou a validade. Sabemos muito sobre a Bíblia hoje. Muitos de nós, inclusive, já puderam até mesmo pisar as regiões onde seus textos aconteceram. Mas quanto conhecemos de Deus, de nós, do próximo e da vida? Há um mistério profundo na Mensagem da Cruz que transforma Saulos em Paulos. Só em espírito e em verdade é que o conheceremos. Somente encontrados por ele é que o conheceremos. E depois de conhece-lo, teremos certeza de que não sabemos o que ele é. E seremos mais dependentes, mais humildes e mais amorosos!

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