Demissão de jornalista do A Tarde põe ética em discussão

Foto ilustrativa
*Pedro Ivo Rodrigues

A polêmica envolvendo o jornal A Tarde, devido à demissão do jornalista Aguirre Peixoto, de 23 anos, supostamente por ter publicado matérias que denunciavam irregularidades praticadas por empresas do ramo imobiliário de Salvador, que por sua vez teriam pedido a cabeça do autor dos textos (para elas) inoportunos pode revelar a fragilidade de uma empresa considerada como um verdadeiro império do mercado editorial nacional, com 99 anos de tradição e sendo o maior jornal do Norte e Nordeste (posição que perdeu recentemente para o Correio da Bahia, de propriedade da família do falecido senador Antonio Carlos Magalhães) e o quinto maior periódico do país. Rumores dão conta de crise financeira enfrentada pelo grupo que tem a frente à família Simões (do fundador, Ernesto Simões Filho – 1886-1957), provocada pela perda da liderança no setor e possibilidade de venda do jornal, o que vem sendo rechaçado publicamente pela sua direção.

O A Tarde nega que a demissão do jornalista se deu por pressões de grupos econômicos, alegando que foram por questões puramente administrativas. Contudo tal justificativa não convenceu os demais profissionais de imprensa de que não houve uma injusta retaliação ao funcionário, o que os motivou a fazer greve até que a linha editorial estivesse definida, além de reivindicarem a readmissão de Peixoto. Caso a hipótese propagada pela mídia seja verdadeira, é mais do que óbvio que a corda arrebentou do lado mais fraco, uma vez que todas as pautas sugeridas pelo repórter têm que passar pelo crivo do editor e também que nenhuma matéria, principalmente de caráter denunciativo, é publicada sem a aprovação do mesmo. Logo, a demissão, nessa circunstância, seria terrivelmente injusta, para não dizer uma covardia.

O caso gerou tamanha repercussão que até o experiente e respeitado jornalista e poeta Florisvaldo Mattos anunciou a sua saída, sem declinar o motivo, mas aparentemente em solidariedade ao profissional que teria sido perseguido.

Jornalista pode ter sido bode expiatório

Uma das coisas que me chamavam a atenção quando cursava Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, era a crença apaixonada de alguns colegas de que poderiam mudar o mundo através da palavra. Somado a ideologias esquerdistas difundidas por alguns professores que se embriagavam com as teorias de Marx, Engels e outros dessa corrente, esses estudantes sonhavam que poderiam transformar a sociedade denunciando as “mazelas do capitalismo”. Assim, muitos “focas”, saem da universidade com a esperança de que terão uma “arma” nas mãos para defender os fracos e oprimidos do sistema, agarrados a uma pretensa ética que seria imposta em suas carreiras, em detrimento dos ditames do mercado, isto é, dos interesses dos empresários da comunicação. Logicamente, não pode haver nenhum fundamento em tal convicção quanto a sua aplicação real, posto que se até as relações interpessoais sejam influenciadas pelo dinheiro, no mundo corporativo mais ainda. Entretanto não é aceitável a penalização de um funcionário por ter infringido uma diretriz que ele desconhecia, tendo em vista que ele não detinha o poder de deliberação. Se foi esse o caso, uma postura arbitrária, medíocre e reveladora de fragilidade da empresa.

O A Tarde, a despeito de suas relações comerciais, sempre foi um baluarte da liberdade de expressão e defensor ferrenho da democracia e dos direitos humanos, o que pode ser comprovado em inúmeras reportagens denunciando os desmandos de caciques políticos, a atuação de grupos de extermínio e a corrupção em diversos setores da sociedade baiana. É um veículo que, até pela sua perenidade, merece a deferência do público leitor. Entretanto são justamente essas bandeiras que não permitem que um funcionário seja mandado embora como bode expiatório. “Noblesse Oblige”.

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