“Dando corda paz e bem” muda a realidade de centenas de crianças do Ulisses Guimarães

Terça, quarta e quinta são dias aguardados com ansiedade para cerca de 137 crianças inscritas nos Projeto Dando corda paz e bem – na verdade, se somarmos os alunos matriculados na Educandário Paz e Bem, chega a 300 sorrisos e corações acelerados para aprender novas notas e soltar a voz.

O Projeto tem mudado vidas por meio da música clássica. Fotos: Wesley Morau/OSollo

O projeto, mantido pelo Instituto Francisco de Assis (IFA/Fasb), funciona no Ulisses Guimarães, bairro em que os índices de violência já foram assustadores e, segundo depoimento de alunos e pais, o Dando corda paz e bem tem contribuído para pacificar a comunidade. Nascido em 2010, a atual coordenadora, Arimar Guimarães, bacharela em direito e em música, conta que “há uma mudança de mentalidade e tiramos as crianças da comunidade do ócio”. Ela também pontuou que “a música trabalha disciplina, metas a serem alcançadas. Todo treino chega a um objetivo final, então, elas vão vendo que, com disciplina, basta você tentar que uma hora você irá realizar o que você quiser”.

No projeto, além de flauta doce – instrumento usado para a iniciação –, violino, viola, violoncelo, canto e coral, teoria musical. “Todos os aspectos voltados ao conhecimento da música erudita clássica e popular”, resume Arimar. A faixa etária dos alunos varia de 4 a 17 anos e, em sua maioria, são oriundos do Ulisses Guimarães e bairros do entorno. Não apenas a oportunidade de aprender a tocar instrumentos de corda clássicos e se descobrir soprano, tenor ou contralto é dada, lá, também tem aulas de dança – na vinda do governador Rui Costa o projeto realizou uma apresentação de ballet para a primeira-dama da Bahia, Aline Peixoto –, percussão e o Mãos talentosas, de artesanato para as pessoas maiores de idade.

Como a preocupação é com a formação do indivíduo em sua totalidade, que é perfeitamente possível por meio da música, para que as crianças se sintam dispostas durante as manhãs que passam no projeto, há parcerias que viabilizam um lanchinho – algumas não tem condições financeiras de trazer de casa e já houve casos de terem mal-estar devido à fome.

Crianças na aula de violino.

O professor Ricardo Aguiar, formado em música sacra, considera o projeto de ação social e explica a importância desta causa abraçada pelas irmãs franciscanas do Senhor. Segundo ele, a “música é fundamental para a questão disciplinar, crescimento, mas, é fundamental mesmo os valores que passamos para essas crianças em sala de aula, sobre família”. Ele explica que, primeiramente, “é o abraço”, é ter sensibilidade para perceber quando alguma criança ou adolescente precisa de uma conversa, um afago. E, ainda, o Dando corda funciona como elo entre menor e família, uma vez que reuniões são realizadas com os responsáveis, ou, ainda, como já ocorreu, formam-se corais com os adultos para promover maior interação, porque a intenção é usufruir o que a música pode proporcionar: “Música vai trabalhar a alma, não só os ouvidos”, disse Ricardo.

 O Bruno Rodrigues, de 20 anos, está no projeto desde os 14, e, hoje, é monitor, repassa o que aprendeu a outras crianças e adolescentes, formando mais um elo nessa corrente do bem. Ele, que conta ter o Dando corda paz e bem mudado sua vida, pretende perseguir seu sonho de viver pela música. “Ela [música] me colocou no outro patamar, hoje, sonho em tocar numa grande orquestra”, também relatou sua alegria em ajudar no projeto: “Hoje, dou aula, ensino crianças, e para mim, não tem coisa melhor do que isso”.

Janaína Peres Reis, a professora que ensina ballet clássico, jazz e sapateado com o professor Ítalo Trindade, com a mesma formação que ela, diz sentir-se realizada em fazer o que ama e contribuir com o projeto.

Com serenidade peculiar, a Irmã Cristina explica que a “Congregação das irmãs franciscanas do Senhor tem como missão cuidar da vida e, sendo assim, os projetos sociais estão presentes onde elas se encontram”. Em Teixeira, por meio da educação, elas têm transformado a realidade social de diversas comunidades através de projetos e ações voltados para crianças e adolescentes.

Atualmente, o Dando corda paz e bem tem disponível às crianças 37 instrumentos musicais, por isso, a coordenadora, maestrina Arimar, faz um apelo: “estamos precisando de doações de instrumentos. Temos alguns mantenedores, mas, hoje, temos somente 37 instrumentos e nós temos 137 crianças. Gostaria que cada uma tivesse esse instrumento nas mãos”. Ter um instrumento para cada uma possibilitaria ganho não só no aprendizado, mas, sobretudo, no trabalho precípuo realizado neste projeto: a elevação da autoestima dos menores, que, por vezes, chegam lá desacreditados em si mesmos. As apresentações lhes conferem destaque e, quase sempre, tudo que uma criança precisa é ser notada.

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