Baiano que coordena estudos para vacina contra a Covid-19 em SP diz que imunização só deve ocorrer em 2021

Conheça o baiano que coordena pesquisa para o desenvolvimento de vacina contra a Covid-19. Foto: Arquivo Pessoal

O cientista baiano Gustavo Cabral, que coordena uma pesquisa do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, para desenvolver uma vacina contra o coronavírus, disse nesta quarta-feira (22) que a expectativa é de que a imunização seja disponibilizada a partir do próximo ano.

“Quando se fala de vacina, precisamos entender que isso requer tempo. Não adianta a gente prometer algo para essa pandemia, não vai acontecer. Na maioria das vezes, o que se propõe é uma vacina que está em testes, algo muito recente, muito novo. Não acredito que para essa pandemia tenhamos uma vacina. Temos uma equipe espetacular trabalhando em tempo integral, com profissionais qualificadíssimos. Até o ano que vem acredito que tenhamos uma vacina”, falou Cabral.

O cientista, natural do município de Tucano, cidade a cerca de 252 km de Salvador, destacou as etapas necessárias para criação de uma vacina e afirmou que, neste momento, o comportamento da população é mais importante do que qualquer medicamento.

“Nesse momento, não existe melhor vacina do que a participação social, a informação correta, bem passada, evitar aglomerações. Não há melhor vacina do que a ação do povo. Não adianta esperar apenas da pesquisa. O povo tem que participar. Não tem outra vacina melhor do que essa”, disse.

De família pobre, Gustavo Cabral vendia frutas quando criança. Hoje ele é imunologista pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor pela Universidade Oxford, na Inglaterra, e na Universidade de Berna, na Suíça. O cientista voltou ao Brasil faz menos de dois meses, à convite de Jorge Kalil, diretor do laboratório do Incor, para conduzir o processo de desenvolvimento da vacina.

O modelo da vacina estudado está apoiado na plataforma Partículas Semelhantes ao Vírus (VLP, sigla em inglês). Dessa forma, a estrutura viral do Sars-Cov-2 é utilizada sem o risco de duplicação do material genético (RNA). As partículas usadas na vacina são induzidas a carregar fragmentos do novo coronavírus e, assim, gerar uma resposta do corpo humano com segurança.

O cientista baiano afirma que ainda se conhece pouco do vírus que provoca a doença, o que dificulta o desenvolvimento da vacina. Mas, com o empenho mundial na contenção da pandemia, o tempo para a produção do medicamento será menor que o habitual. Ele espera, contudo, que não exista um corte de investimentos após a passagem do pico da doença.

“Geralmente, a vacina requer cinco ou dez anos para ter resultado. Mas, neste caso, por questões de urgência, acredito que no próximo ano teremos uma vacina. O mundo está vivendo o coronavírus. Está tendo investimento. Mas não adianta que todos queiram uma vacina agora, e no próximo ano, quando a poeira baixar, os investimentos sejam cortados. Não vai ter continuidade. Melhor exemplo é o zikavírus. Tivemos um problema gravíssimo com o zika. Tivemos alguma vacina? Não. Assim que a poeira baixa, os investimentos são cortados, e continua tudo no mesmo”, disse.

A pesquisa realizada no Incor não é a única no mundo em busca de uma vacina contra o coronavírus, porém Gustavo Cabral aponta que a equipe brasileira tem seguido todos os protocolos de segurança, já que não sofre com a pressão do mercado farmacêutico.

“Nós trabalhamos com seres humanos, a gente não sofre pressão mercadológica. Seguimos os rigores acadêmicos. Temos uma equipe top no planeta, nível internacional, não perde para nenhum lugar no mundo. As promessas que são feitas, acho válidas, mas precisa mostrar dados. Qualquer vacina que vá ser utilizada nos seres humanos, no geral, já conta com várias publicações cientificas, nas melhores revistas científicas. E não temos nenhuma publicação. Até então, só informação de jornais. Vão testar em seres humanos sem testar em animais? Sem testar a toxicidade? Quais modelos foram utilizados? Precisamos dessas respostas para dar confiabilidade. É fácil anunciar que tem vacina para utilizar em breve. Nós temos, mas ela seguirá todos os rigores científicos. Não seremos irresponsáveis”, declarou.

Um pouco da história do médico baiano

Aos oito anos, Gustavo Cabral trabalhava em uma feira. Vendia manga, coco e geladinho na cidade de Tucano, no nordeste da Bahia, onde nasceu. O máximo que alcançou na área de vendas foram duas bancas de carne, pequenos açougues em outras cidades do interior. Nessa época, não conseguia estudar muito porque tinha que trabalhar.

Aos 15 anos, vendeu os dois açougues para se matricular em uma escola particular. Passou a se dedicar exclusivamente aos estudos. A partir de então foi só meter a cara nos livros, o que lhe credenciou a passar no vestibular do curso de Ciências Biológicas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

De família humilde, a mãe ajudante geral de uma escola e o pai agente de saúde, penúltimo de quatro filhos, Gustavo foi o primeiro da casa a entrar no ensino superior. Passou parte do curso vivendo com R$ 50 que a família enviava, o que não o impediu que fizesse um mestrado em imunologia. “Aí dei um pouco de sorte. Por volta de 2004, ocorreu um investimento governamental muito grande em ciência e tecnologia nas universidades públicas brasileiras”.

Agora sim com bolsas de estudo, fez doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado no exterior. Morou em Portugal, estudou três anos e meio na Universidade de Oxford, na Inglaterra, e mais um ano e meio na Suíça. Nas duas últimas se especializou em vacinologia. Em seus estudos, usou um método em que desenvolveu a vacina contra o vírus da zica ainda em modelos animais. Foi capa da prestigiada revista Vaccines.

Há poucos meses, deixou a Europa para levar seus conhecimentos (e o sotaque do interior da Bahia) para o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. No primeiro dia do novo trabalho, onde inicialmente daria continuidade às suas pesquisas sobre bactérias, estreptococos e uma vacina contra a chikungunya, foi chamado para almoçar com o chefe, o cardiologista Jorge Kalil.

Naquele almoço veio o convite para coordenar, aos 38 anos, a equipe que passaria a desenvolver no Brasil a vacina contra a Covid-19. Gustavo é o mais jovem entre os coordenadores da pesquisa. “Ele (o chefe) me deu as boas-vindas e a primeira coisa que falou foi: ‘então, vamos desenvolver a vacina do novo coronavírus’”, conta o médico.

Compilação Correio e G1BA

 

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