Ao pó voltaremos

Estive em um enterro no meio desta pandemia, e pensei numa frase do livro que li de Somerset Maugham, “O Fio da Navalha”: “Os mortos são tão irremediavelmente mortos, quando mortos”.

A mansa ordem da vida. Que voe o pó; não adianta defesa; ao pó voltaremos, que somos pó, não mais. Alguns místicos minutos, após a notícia, e aparece a teia do sofrimento na vida do pai, da mãe, de toda a família. Os dias voavam velozes antes na sobrevivência do dia a dia. A morte chegou repentinamente.

A lembrança causa uma dor particular, como particular foi aquele dia, é um sofrimento que abate o coração. Uma relação transtornada com o tempo. Agora vivencio o tempo a partir de uma perspectiva da morte, representada diante de mim por este nome, por está juventude. O tempo sempre voltará a fluir. Mas aqui ele se torna espantosamente obstinado; oprime a alma, obscurece o ânimo.

Abate-se sobre mim um vazio, uma espécie de ausência. Sinto-me cair num buraco, onde perco a noção do tempo e do espaço. E aí dos mortos!

Que faremos com os mortos? Podem rezar missas aos potes para que as almas deles se salvem, mas eles não querem isso. Eles querem saber de nós – eles nos vigiam. Eles vigiam o nosso reino da terra; foi por este reino que eles morreram. Estão  espantados: querem saber por que morreram, para que morreram.

A madrugada tem uma hora neutra que há muito tempo observo. Estou rezando, mas não me agrada dormir. É aí que vem, não sei como, a hora neutra. Na minha cabeça uma vaga sensação de sagrado, alguma coisa santa, como uma pequena cruz, é a madrugada. Ela tinha os olhos vulneráveis, tomados pela infinita esperança inerente à juventude. Agora o silêncio. Porque o silêncio não tem substância: ele é vazio como grande redoma de vidro, e o que vive nele é a última palavra ou o último gesto antes da morte.

A força secreta da vida saltou de súbito, produziu um instante último solto em si mesmo.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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