194 Maracanãs lotados de lixo são jogados no lugar errado

A meta do governo brasileiro de acabar com os lixões a céu aberto até o ano que vem, imposta pelo chamado Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), é apenas o começo de um dos grandes desafios do país no século XXI: agregar valor ao lixo, tornando-o economicamente viável. Para tanto, o Brasil, que ainda utiliza métodos primários na gestão do lixo sólido urbano, precisará se atualizar em tecnologias existentes.

“A utilização de tecnologias mais avançadas é um assunto novo no Brasil. Nós demoramos muito para acompanhar o nível da inovação de Europa, Estados Unidos e Japão”, disse o pesquisador José Fernando Thomé Jucá, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

194 Maracanãs lotados de lixo são jogados no lugar errado
(Foto ilustrativa)
Junto com 62 profissionais divididos em oito núcleos nacionais e internacionais, Jucá é responsável por um projeto de mapeamento e análise das diversas tecnologias de tratamento e destino dos resíduos sólidos no Brasil e no mundo. “Ainda estamos na época dos lixões, enquanto outros países têm dado destinos melhores e mais rentáveis ao lixo. Estamos há algumas décadas atrasados”, diz.

O desafio, para os próximos anos, é atualizar o país, agregando valor ao lixo. “O que se busca hoje é valorizar o resíduo, reciclando para a produção de novos produtos, ou destinando adequadamente materiais com potencial de serem combustíveis para outros processos ou produzindo energia elétrica”, diz a professora Viviana Zanta, pesquisadora do Grupo de Resíduos Sólidos da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Hoje, a maioria dos resíduos sólidos urbanos no Brasil é destinada aos aterros sanitários, instalações isoladas utilizadas para o depósito de resíduos.

Esse tipo de instalação é situada e monitorada segundo princípios específicos e de modo a minimizar impactos ao meio ambiente e à saúde pública, evitando a contaminação do solo e do ar. Mas especialistas apontam que há outros caminhos para o lixo que hoje é destinado aos aterros sanitários.

 

Panorama

Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2012, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), 32,3 mil toneladas de lixo ainda eram despejadas todos os dias em lixões no ano passado. A quantia é equivalente a 17,8% de todos os resíduos sólidos urbanos produzidos no país.

De acordo com o mesmo estudo, outras 43,8 mil toneladas diárias de resíduos sólidos urbanos (24,2%) eram destinadas aos aterros controlados. Trocando em miúdos, a cada ano, o Brasil despeja 27,8 milhões de toneladas de lixo sólido em destinos inadequados. Isso seria suficiente para preencher 194 estádios do tamanho do Maracanã.

A maioria do lixo sólido produzido no país era despejada em aterros sanitários – destino adequado, mas pouco sustentável no sentido do reaproveitamento do lixo. Aproximadamente 105,1 mil toneladas de lixo por dia (58%) eram levadas, no mesmo ano, para esse tipo de instalação.

“Mesmo levando em consideração a disposição inadequada da maioria dos nossos resíduos em aterros controlados e lixões, a utilização de aterros sanitários não pode ser justificada tecnicamente. Mandamos grande parte do nosso lixo para os aterros sanitários também por falta de conhecimento de alternativas tecnológicas”, afirmou Jucá, da UFPE.

Um claro exemplo do pouco investimento em tecnologias adequadas ao lixo produzido no Brasil é a baixa utilização de métodos como a compostagem, alternativa recomendada para os resíduos orgânicos – o lixo de origem vegetal ou animal, como os restos de alimentos, ossos e sementes.

A compostagem é o processo biológico de decomposição da matéria orgânica que resulta na produção “ecologicamente correta”. No Brasil, a compostagem tem grande importância, já que cerca de 50% dos resíduos são orgânicos. No entanto, só 1,5 tonelada de lixo por dia, ou 0,8% dos resíduos, eram destinados a unidades de compostagem no país em 2008, segundo dados do IBGE. Os estudos mais recentes nem contabilizam esse tipo de destinação.

O ponto positivo é que o país já realiza pesquisas para a compostagem anaeróbia, que é o processo em um ambiente fechado com a ausência de oxigênio. “Já começamos a fazer experimentos para esse tipo de alternativa em condições de pressão e temperatura controladas, possibilitando a geração de gases como o metano, que gera muita energia”, explicou Jucá.

O país ainda ‘patina’ também em tratamentos destinados a resíduos não orgânicos. Segundo os dados mais recentes do IBGE, apenas 1,4% do nosso lixo urbano sólido é destinado a unidades de triagem para reciclagem. As unidades de incineração – a queima de materiais em altas temperaturas para a diminuição do volume e a produção de calor e energia elétrica – quase não existem no país. Tanto é que, em 2008, menos de 0,1% do lixo urbano era destinado a esse tipo de tratamento.

Enquanto o Brasil tem apostado nos aterros sanitários, países desenvolvidos têm buscado alternativas tecnológicas para tratar seu lixo. Na União Europeia, as tecnologias de tratamento e disposição de resíduos são variadas: a reciclagem, a compostagem, a digestão anaeróbia, o tratamento mecânico biológico e a incineração com geração de energia.

Incineração

“Cada país tem sua particularidade, mas, de maneira geral, o tratamento dos resíduos sólidos na Europa sofreu uma mudança de 1995 a 2010. Antes, o aterro sanitário era o tratamento mais comum, mas outras tecnologias, como a incineração, foram sendo mais empregadas”, explica Jucá.

Em 2005, os aterros tinham uma participação de 62% na quantidade de resíduos tratados. Essa participação caiu para apenas 38% em 2010. Em contrapartida, a participação da incineração aumentou. Em torno de 13% dos resíduos foram incinerados em 1995 e a participação subiu para 22% em 2010.

Por sua vez, a porcentagem de reciclados era de 10% e em 2012 subiu para 25%. Diferente do Brasil, a compostagem também aumentou presença: saiu de 5% para 15%. Países fora da União Europeia ainda exibem índices consideráveis de resíduos em lixões e aterros.

No Estados Unidos, um dos maiores produtores de lixo do mundo, também já há conscientização crescente. “Assim como na Europa e no Japão, a população dos Estados Unidos já aceitou o conceito da hierarquia em gestão de resíduos sólidos como um meio para disseminar as metas nacionais para o tratamento de resíduos sólidos urbanos”, afirma Jucá.

A hierarquia adequada para o tratamento do lixo é a seguinte: redução de lixo na fonte e reaproveitamento de lixo orgânico em jardins; reciclagem e compostagem fora da fonte do lixo; incineração com geração de energia e descarte final de resíduos em aterros sanitários.

Apesar de ainda estar aquém no uso de tecnologia, especialistas consideram que o Brasil tornou-se referência em tipos de tratamento do lixo. “Somos considerados exemplo na indústria de latinhas de alumínio, já que 98% das nossas latinhas são recicladas”, afirma o gerente de conteúdo e metodologia do Instituto Akatu, Dalberto Adulis. Ele ressalta que a inclusão social do catador de latinhas é copiada em outros países.

Bahia envia 70% dos resíduos para lixões ou aterros controlados

Entre as 27 unidades da federação, a Bahia é o oitavo colocado em um ranking nada desejável: o dos que enviam a maior parcela dos resíduos urbanos para os lixões. Em 2012, quase 70% de todo o lixo sólido urbano do estado tinha um destino considerado inadequado: 33,8% desses resíduos ia para os lixões e outros 35,5% para aterros controlados.

Os dados são do estudo Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), de 2012. O estudo mostra que a Bahia envia uma proporção maior dos resíduos para lixões do que vizinhos nordestinos como Paraíba (32,2%), Pernambuco (27,2%), Sergipe (25,8%), Ceará (25,2%) e Piauí (23,9%).

Na região, os únicos estados que enviam, proporcionalmente, mais lixo que a Bahia são Alagoas (58%), Rio Grande do Norte (34%) e Maranhão (33,9%). O estado que está mais próximo de extinguir os lixões é São Paulo (8,7%). O destaque negativo é Roraima, com 82,7%.

Outro dado preocupante da pesquisa é que a Bahia não evoluiu de 2011 para o ano passado. Em 2011, 33,7% de todos os resíduos eram enviados para os lixões, 0,1 ponto percentual a menos do que no ano passado. A Bahia implantou 35 aterros, sobretudo entre os anos de 2000 e 2006, segundo dados da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder).

Hoje, o maior problema com a gestão do lixo está nos municípios pequenos, onde há pouco conhecimento sobre a gestão do lixo. Nas cidades maiores, a situação já está equacionada.

Azeite de dendê usado vira biodisel em laboratório da Ufba

Você já imaginou para onde vai o azeite de dendê da moqueca que você come todo fim de semana? Pois bem. Salvador também tem um bom exemplo de reaproveitamento do lixo que pode te ajudar a descobrir.

Pesquisadores do Laboratório de Energia e Gás, localizado na Escola Politécnica da Ufba, produzem um tipo de biodiesel chamado B100 a partir de matérias-primas como o azeite de dendê usado em casas e restaurantes.

Além do dendê, os pesquisadores, coordenados pelo professor Ednildo Torres, do Departamento de Engenharia Química, utilizam óleo de cozinha usado, que tem como matéria-prima soja, milho, algodão e canda. Em julho de 2012, o professor e sua equipe fizeram, com sucesso, uma viagem de 15 mil quilômetros de carro, de Salvador ao Peru, utilizando o biodiesel produzido no laboratório.

Um dos pleitos dos pesquisadores é a ampliação das plantações de dendê para produzir combustíveis. “Hoje não existe um programa para aumentar a produção de dendê para o biodiesel”, critica Torres.

Noruega importa e reaproveita lixo para produção

Uma reportagem publicada recentemente no The New York Times chamou a atenção do mundo ao mostrar que Oslo, a capital da Noruega, importa lixo para produzir energia. “Uma parte vem da Inglaterra, outra vem da Irlanda e outra da vizinha Suécia. Ela, inclusive, tem planos para o mercado americano”, relatou a matéria.

Metade da capital norueguesa e a maioria das escolas são aquecidas pela queima do lixo – lixo doméstico, resíduos industriais e até resíduos tóxicos e perigosos de hospitais e apreensões de drogas. Diferente do Brasil, que ainda luta para dar um destino adequado para montanhas de lixo, o problema da Noruega é outro: o lixo para queimar já acabou.

“O problema não é exclusivo de Oslo. Em toda a Europa setentrional, a demanda por lixo é muito superior à oferta”, relata a matéria do NYTimes. Por outro lado, outras áreas da Europa que produzem grande quantidade de lixo, como Nápoles, no Sul da Itália, vivem uma crise na coleta de lixo. A cidade hoje paga a municípios de países vizinhos para que aceitem seus resíduos.

 

 

Fonte: Victor Longo/Correio

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