170 anos de Castro Alves: Relembre alguns de seus poemas

Foto: Reprodução

Nesta terça-feira (14), os apreciadores da boa e velha poesia comemoram o aniversário de 170 anos de um dos mais importantes poetas brasileiros do século XIX, o baiano Castro Alves (1847-1871), em vários eventos pelo país. Por exemplo, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IBHB) será feita a exibição do documentário “14 de março: nasce um grito de liberdade”, do diretor Carlos Pronzato, no local ainda será realizada a distribuição de livros e apresentações musicais a fim de homenagear “o poeta dos escravos”, como ficou popularmente conhecido por conta das suas críticas ferrenhas ao sistema escravista que se tornou sua marca registrada em alguns de seus poemas.

Com o objetivo de homenagear o poeta baiano, o Sollo selecionou alguns poemas memoráveis que lançaram Castro Alves no Olimpo da Literatura Brasileira:

 

A Duas Flores

 

São duas flores unidas

São duas rosas nascidas

Talvez do mesmo arrebol,

Vivendo,no mesmo galho,

Da mesma gota de orvalho,

Do mesmo raio de sol.

 

Unidas, bem como as penas

das duas asas pequenas

De um passarinho do céu…

Como um casal de rolinhas,

Como a tribo de andorinhas

Da tarde no frouxo véu.

 

Unidas, bem como os prantos,

Que em parelha descem tantos

Das profundezas do olhar…

Como o suspiro e o desgosto,

Como as covinhas do rosto,

Como as estrelas do mar.

 

Unidas… Ai quem pudera

Numa eterna primavera

Viver, qual vive esta flor.

Juntar as rosas da vida

Na rama verde e florida,

Na verde rama do amor!

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Amar e Ser Amado

 

Amar e ser amado! Com que anelo

Com quanto ardor este adorado sonho

Acalentei em meu delírio ardente

Por essas doces noites de desvelo!

Ser amado por ti, o teu alento

A bafejar-me a abrasadora frente!

Em teus olhos mirar meu pensamento,

Sentir em mim tu’alma, ter só vida

P’ra tão puro e celeste sentimento

Ver nossas vidas quais dois mansos rios,

Juntos, juntos perderem-se no oceano,

Beijar teus labios em delírio insano

Nossas almas unidas, nosso alento,

Confundido também, amante, amado

Como um anjo feliz… que pensamento!?

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O laço de fita

 

Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores…

Prendi meus afetos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

Num laço de fita.

 

Na selva sombria de tuas madeixas,

Nos negros cabelos da moça bonita,

Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se

O laço de fita.

 

Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual pássaro bravo, que os ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

Num laço de fita.

 

E agora enleada na tênue cadeia

Debalde minh’alma se embate, se irrita…

O braço, que rompe cadeias de ferro,

Não quebra teus elos,

Ó laço de fita!

 

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,

Os astros se libram na plaga infinita.

Os anjos repousam nas penas brilhantes…

Mas tu… tens por asas

Um laço de fita.

 

Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.

Por que é que tremeste? Não eram meus lábios…

Beijava-te apenas…

Teu laço de fita.

 

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos

N’alcova onde a vela ciosa… crepita,

Talvez da cadeia libertes as tranças

Mas eu… fico preso

No laço de fita.

 

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova… formosa Pepital

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c’roa…

Teu laço de fita.

 

Oh! Bendito o que semeia

Livros à mão cheia

E manda o povo pensar!

O livro, caindo n’alma

É germe – que faz a palma,

É chuva – que faz o mar!

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Morena Flor

 

Ela tem uma graça de pantera

No andar bem-comportado de menina.

No molejo em que vem sempre se espera

Que de repente ela lhe salte em cima

 

A mim me enerva o ardor com que ela vibra

 

E que a motiva desde de manhã.

– Como é que pode, digo-me com espanto…

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A Um Coração

 

“Coração de Filigrana de Oiro”

Ai! Pobre coração! Assim vazio

E frio

Sem guardar a lembrança de um amor!

Nada em teu seio os dias hão deixado!…

É fado?

Nem relíquias de um sonho encantador? Não, frio coração! É que na terra

Ninguém te abriu…Nada teu seio encerra!

O vácuo apenas queres tu conter!

Não te faltam suspiros delirantes,

Nem lágrimas de afeto verdadeiro…

– É que nem mesmo o oceano inteiro

Poderia te encher!

 

 

 

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