Violência

Moro em Salvador, estado da Bahia, que, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, está como a segunda capital do Brasil em números absolutos de pessoas que morreram vítimas de violência.

As linhas da cidade estão sobre a borda curva do horizonte e um céu azul, mas a violência não está nestes espaços arejados de paz, nem no horizonte ou no azul do céu. Às mil trezentas e noventa e sete vítimas do Anuário de 2019 e seus algozes, são fruto de ruas esburacadas, às vezes sem saneamento básico e alumiadas com gambiaras. Ali onde a vida é em condições medonhas, difíceis de acreditar. Muitos morrem de fome e as crianças que sobrevivem não vão à escola ou vão só pela merenda escolar. Na adolescência ficam na porta, mantendo-se drogados ou no sinal de trânsito na luta por um trocado.

Não vivem a doce compressão do mundo dentro deles, e sim um universo caótico que encobre o dom de criar a beleza e as sensações de infinito, aquela necessidade de chegar ao céu ou de apanhá-lo refletido na poça d’água de nossos sentidos. Neste mundo de exclusão tudo é trágico e, em algum lugar, no íntimo delas, está escondido um ponto negro, encravado lá no fundo, bojudo e fluido como uma nuvem-nebulosa que, inesperadamente, se dilata e desce para arrastá-lo, sugá-lo com fúria até as raízes.

Aí está a violência, que nasceu do desamparo da falta de atenção e carinho deixando-o oco. Moído feito um bagaço, sim o pontinho monstruoso, memória escondida nele das agressões sofridas pela vida. As chances de ler numa lápide “Morto por um policial roubando” são grandes. O mundo para eles é a rua, um mundo sem luz ,sem brilho,não tem beleza.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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