Viagem a São Paulo

Subi ao avião com indiferença e, como o dia não estava bonito, lancei apenas um olhar distraído a esta cidade de Salvador e mergulhei na leitura de um jornal qualquer.

Os comissários começaram a se mover, olhando se todos estavam com o cinto de segurança afivelado. Estava sem pressa. Fiquei a olhar pela janela e não via mais que nuvens, e feias. Na verdade, não estava no céu; pensava coisas da terra, minhas pobres,
pequenas coisas.

Uma aborrecida sonolência foi me dominando e pensei que, a última vez que viajei a São Paulo, o tempo também estava tão fechado que não pudemos descer, pensava na cantina italiana Família Mancine, que é o primeiro local que vou, tem até fila de espera, e que Dias Gomes adorava, morreu quando voltava para casa, num acidente ao sair de lá.

Na chegada, ficamos mais de uma hora rodando dentro de um nevoeiro porque o teto estava baixo. Estava apreensivo já que, ao andar pelo chão, apesar do perigo das pedras e buracos para um acidente; porém é o chão. Nesta uma hora rodando, senti que naufraguei no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos da minha vida.

Esses pensamentos, voando nas asas dos minutos, sentindo um leve nervosismo como se alguma coisa realmente fosse acontecer, como a falta de combustível ou uma pane. Negociando com minha covardia.

Então as luzes todas se acenderam, fazendo-se uma claridade dolorosa surgisse, estávamos no solo e tinha de sair de minhas reflexões e partir para a ação, pegar a valise de mão, aguardar o desembarque, ir a esteira e esperar a bagagem despachada.

Os sons da cidade de São Paulo já estavam na minha alma ainda surdos e distantes, só ouvia a voz do autofalante do aeroporto: “passageiros do vôo 297 da Azul dirijam-se à esteira 9”.

Do lado de fora do aeroporto o mundo real acontecia. Sirenes e buzinas. Os momentos, nesta viagem, continham promessas, de experiências novas, tinha de capturar um sabor diferente nesta metrópole tão cheia de opções, sei que quando retornar em quatro dias tudo se desvanecerá, evaporará, se eu não agarrar este desfrute, enquanto estou aqui, vivendo.

As coisas mudam sempre.

Nestes dias, um destino desconhecido nos espera; e isto é que dá sabor a vida, e o dia da chegada é sempre o mais excitante. No táxi para o hotel, as luzes surgirem como vagalumes no campo de edifícios que se estendia diante de mim.

Meu coração estava aberto para o novo e não para a rotina, e isto ilumina o viver. E sei que este texto não reflete o que vivi, e o que viverei em outras viagens, já que a vida é bem mais que palavras e histórias.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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