Reconheceríamos Jesus?

“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai.” (Mateus 11.27)

Há momentos nos evangelhos em que, explicitamente, nos é dito que todo poder estava disponível, entregue a Jesus. Há momentos em que Ele mesmo afirma isso. Imagino o impacto que essas afirmações produziam. Os relatos bíblicos nos dão conta de que a aparência de Jesus não impressionava. Não havia beleza. Ele, sem dúvida, tinha a aparência do típico homem pobre da região em que viveu. Mãos calejadas, cabelos crespos, pele escurecida (em parte pela etnia e em parte pela constante exposição ao sol). Não tinha bens. Suas sandálias, que João Batista disse não ser digno de baixar para tirá-las, certamente eram de um tipo comum, barato e resistente. E por isso, surradas pelo uso e talvez marcadas por reformas. Seus discípulos, homens do mesmo tipo. Todos vestidos pobremente. E então Jesus diz: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai”. Quem o levava a sério? Nós lhe daríamos crédito, apesar das aparências?

Temos evidências que pesam contra nós. Avalie como lemos hoje as Escrituras. Frequentemente revelamos uma leitura distanciada de seu contexto e, infelizmente, também de seu sentido. Faltam-nos os olhos para percebermos o que está sendo dito. Sem nos dar conta corrompemos o que lemos aplicando ao texto categorias que não fazem o menor sentido a ele. Talvez a própria pessoa de Jesus seja o melhor exemplo. Em nosso imaginário ele aparece como um homem branco, pobre (mas não um tanto que nos choque), de face bonita e olhos, se não azuis, pelo menos claros. Se nos transportassem ao seu tempo, para a Galiléia do primeiro século, e saíssemos às ruas à procura de Jesus, temo que jamais o encontraríamos. Guiados pelas multidões teríamos sucesso, mas ficaríamos chocados. Ele seria uma contradição à imagem que criamos para o Filho de Deus. Isso é apenas um exemplo. Temos várias pressuposições idealizadas e elas tem corrompido nosso cristianismo. Ainda que pese nossa sinceridade, nossas prioridades, valores e formas de manifestar a fé em Jesus merecem avaliação.

No Evangelho de Mateus, como lemos hoje, Ele disse “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai” e, em seguida, convidou os cansados e sobrecarregados para o seguirem. No Evangelho de João, depois de o texto dizer que “Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder” (Jo 13.3), descreve a cena em que  Ele lavou os pés dos discípulos e os deixou constrangidos. Essas duas atitudes servem de exemplo. Elas revelam amor, compaixão e humildade. São essas as marcas de nossa espiritualidade? Crendo em Cristo nos sentimos cheios de poder para amar, nos compadecer e servir? Sentimo-nos fortes para acolher os fracos, a amar os inimigos e orar por eles? Afirmei que, se voltássemos ao primeiro século, não reconheceríamos Jesus. Pergunto-me: se Ele viesse visitar nossas igrejas, as reconheceria como Suas? Se passasse conosco uma semana, nos veria como discípulos?

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