Quem é e como age a líder de facção criminosa da Bahia que controla o tráfico e já ordenou 200 assassinatos

Ilustração: IstoÉ

Ela acumula seis processos na Justiça Criminal. Um por tráfico de drogas, quatro por associações com traficantes e outro por homicídio qualificado. Procurada pela Delegacia de Homicídios de Vitória da Conquista, na Bahia, a morena de pele clara, olhos castanhos e batom vermelho tem um mandado de prisão pesando contra ela e no baralho do crime da Polícia Civil ganhou uma posição de destaque graças ao clima de terror e tensão que impôs na cidade. Jasiane Silva Teixeira, 28 anos, a líder da facção Bonde do Neguinho (BDN), que atua na periferia da cidade, é a Dama de Copas do crime organizado no interior do Nordeste.

A alcunha que lhe foi atribuída em janeiro pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia ajuda a polícia na hierarquização dos integrantes de uma facção e incentiva a população na busca e captura de bandidos procurados. E parece ter se ajustado com perfeição à criminosa. Nos muros de casas populares é possível ler pichações com a inscrição “salve, copas”. O último crime imputado aos mandos da dama, que de nobre só tem mesmo o epíteto, é a morte de dois jovens confundidos com soldados do tráfico em um território controlado pela BDN e assassinados com dez tiros de pistola e revólveres. Segundo a Polícia Civil, os garotos transitavam de bicicleta em um conjunto habitacional do bairro de Campinhos, região controlada pelo crime organizado, quando foram mortos. Os homicídios endossam os números da violência na cidade de 346 mil habitantes, a terceira maior do estado. Desde janeiro, morreram 34 pessoas.

Quem dá as cartas

Morte, violência e sangue são marcas registradas nas ações da BDN. Quem se encarrega das execuções é Juarez Vicente de Moraes, braço-direito de Jasiane. Ela manda, ele executa. Sem dó nem piedade. Segundo uma fonte da polícia, que preferiu não se identificar, Neguinho Juarez era, em 2008, apenas uma mula do tráfico, mas quando o grupo passou à liderança da Dama de Copas, ele foi alçado à gerente.

Foragida, Jasiane apresenta um histórico de resiliência. Prima e namorada do maior traficante da cidade, Bruno de Jesus Camilo, o Pezão, ela sobreviveu, em 2008, a uma fuga após um confronto com a polícia que fez o companheiro perder a vida. Em 2012, mesmo longe da cidade, ela conseguiu reerguer o grupo. Foi partir de então que Neguinho Juarez ganhou a autorização funesta: passou a ter carta branca para assassinar quem atravessasse o caminho da facção. Em março de 2016, ele foi preso, mas saiu da cadeia poucos dias depois por um suposto erro técnico do Judiciário local. Durante o tempo em que esteve detido, teria jurado vingança tão logo recuperasse a liberdade. “A ordem da Dama de Copas para quem não paga eventuais dívidas é pagar com a própria vida”, diz a fonte. Jasiane e seu comparsa seguem nessa toada. Números da Delegacia de Homicídios revelam que 2016 se encerrou com 209 assassinatos ligados à dupla.

Números da violência em Vitória da Conquista: 34

Homicídios desde o início deste ano: 200

Assassinatos registrados em 2016: 90% das mortes estão associadas ao tráfico

De acordo com a Polícia Civil, existem mais de dez inquéritos contra os dois. As investigações apontam também uma suposta ligação da BDN com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em Campinhos, surgiram pichações em prédios do condomínio Minha Casa Minha Vida com as iniciais do PCC. Outros indícios revelam que, quando se separou do companheiro para reerguer a facção, a Dama de Copas chegou a se aliar a Paulo T.G., integrante de uma das facções mais conhecidas de Salvador, o Bonde do Maluco, que atua como braço do PCC.

O temor de que as execuções aumentem está relacionado a um conflito local com a rival Bonde do Nem Bomba (BNB). O líder William de Souza Filho controla o lado leste de Vitória da Conquista, demarcado pela BR-116. Desde que assumiu o posto de chefe do tráfico, Jasiane tenta eliminar Nem Bomba da cidade com constantes invasões no território oposto e assassinatos dos soldados do BNB. “Eles rivalizam por pontos de drogas, porém a facção de William não tem um perfil tão violento quanto a BDN”, diz um dos delegados que investiga os crimes. “Os Nem Bomba não querem polícia do lado deles, por isso evitam conflitos sangrentos.” Contra o líder do grupo, segundo a Delegacia de Homicídios da cidade, não há nenhum mandado de prisão até hoje.

Dos 34 homicídios que ocorreram na cidade, 15 têm a Dama de Copas como mandante. Como a facção não abre mão de táticas extremamente violentas para controlar o tráfico de crack e maconha na região, alguns membros relatam ter a intenção de servir ao grupo rival. Porém, aqueles que ousam contrariar os interesses da Dama de Copas e de seu aliado Neguinho Juarez já sabem: o assassinato é praticamente destino certo.

Ilustração: IstoÉ

 

 

 

 

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