Por que as mulheres traem?

(Divulgação/Reprodução)

A tentativa de desvendar o universo feminino já deixou muito homem maluco. Entre tantas coisas que não entendemos, uma sempre me ressabiou: o que, afinal, leva uma mulher a trair o marido?

Carência devido a uma relação longa e já sem aquela paixão do início? Vingança por coisas que o homem fez? Ou, mais assustador, pura diversão?

Para entender melhor esse assunto tabu em rodas masculinas, me cadastrei nas duas maiores redes sociais especializadas em encontros discretos para pessoas casadas: Ashley Madison e Second Love.

(Inara Negrão/Revista VIP)

Há mais de um ano no país, o Ashley Madison já conta com mais de 1 milhão de usuários, enquanto o holandês Second Love tem 200 mil cadastrados.

Criei um perfil nas duas redes sociais com as mesmas características: publicitário, 32 anos de idade, casado há cinco, branco, 1,77 metro de altura, 74 quilos, cabelos curtos e começando a ficar grisalho (elas adoram um grisalho).

Me descrevi como um homem que gosta de novas “aventuras” e de frequentar lugares “discretos” – palavras-chave nos sites de relacionamento extraconjugal.

Pus nome (falso) e foto (verdadeira, com Photoshop para deixar o cabelo mais acinzentado).

Sem falsa modéstia, fiquei envaidecido quando, pouco mais de meia hora depois de o meu perfil ir ao ar, recebi sete solicitações de amizade, de quatro loiras e três morenas (em um mês, foram 70 pedidos e 78 piscadas, algo como a cutucada do Facebook).

(Inara Negrão/Revista VIP)

São mulheres bonitas, bem conservadas, estruturadas profissionalmente e casadas já há algum tempo – cinco anos pelo menos.

Durante os 30 dias de pesquisa, conversei com 14 mulheres.

Dessas, tive um papo mais longo com quatro. Com outras sete tive conversas breves – quando eu perguntava onde moravam ou o que faziam da vida, ficavam offline instantaneamente.

Talvez por medo de qualquer detalhe revelar suas identidades. Ou talvez porque não me curtiram mesmo. Nem todas estavam lá para pular a cerca.

Três eram garotas de programa. Uma delas, de 29 anos, morena e bonita, anunciou o preço de cara: R$ 300 para sair comigo.

Minhas mulheres

A primeira com quem conversei pelo chat do Ashley Madison foi uma loira de São Paulo – vou chamá-la de Marina (mudei todos os apelidos e uma ou outra informação pessoal das mulheres citadas nesta reportagem, para que elas não corram o risco de ser identificadas ou localizadas. Mas elas são reais, recebi fotos de todas, e as conversas são absolutamente verdadeiras).

(Inara Negrão)

Marina tem 36 anos e é casada há 14. Foi ela quem teve a iniciativa de puxar assunto. Com muito papo e jogo de cintura, tentei conseguir alguma explicação para a sua pulada de cerca.

Fazendo um pouco de mistério (dica 2: mulheres curtem homens com um quê misterioso) e dando uma de inexperiente na área, perguntei a ela o motivo de frequentar aquele site de traição, se já tinha saído com outros homens e há quanto tempo fazia isso.

Segundo ela, há mais ou menos cinco anos seu marido parou de procurá-la e deixou de ser carinhoso.

Marina conectara-se ao portal havia quatro meses por indicação de sua melhor amiga, que sabia da situação amorosa dela e já tinha sido usuária do Ashley.

“Já fiz alguns amigos aqui, que me cobriam de elogios e atiçavam minha imaginação falando o que queriam fazer comigo… Isso me dava muito tesão. Até que um dia resolvi marcar um encontro num motel do outro lado da cidade, bem longe da minha casa. A partir daí mudei minha forma de pensar e de agir. Ainda sou jovem e estou até pensando em me separar. Consigo arrumar um gato para mim.”

Quem se cadastra em um site desses e premedita a traição, imagino, deve estar bem certo do que quer.

Argumentos para a pessoa não ficar arrependida os promotores dos portais têm aos montes.

O diretor-geral do Ashley Madison no Brasil, Eduardo Borges, afirma que seu site serve para que os casais não se divorciem.

(Inara Negrão/Revista VIP)

“Os usuários só me mandam histórias bonitas. A traição salva o casamento. Em vez de o sujeito se divorciar, ele trai e ponto final. A família continua inteira”, me disse ele quando, já identificado como jornalista, o entrevistei.

De acordo com ele, os usuários, em sua maioria, são casados e amam seus parceiros, mas não estão satisfeitos com a quantidade de sexo que têm em casa. E, usando portais discretos como esses, encontram pessoas exatamente com os mesmos interesses, sem riscos.

Uma pesquisa feita no país inteiro e publicada pela VIP em outubro de 2011 mostra que 64% das mulheres já traíram seu companheiro uma vez na vida: 42% delas com sexo e 22% apenas com beijos.

Entre os homens, o índice é um pouco maior: 73% já colocaram chifres na cabeça de suas esposas. Só que, para elas, arrependimento não parece estar no vocabulário: 72% das mulheres que afirmaram ter traído disseram que não tinham peso algum na consciência, contra 65% dos homens.

O índice obtido pelo site Second Love entre sua base de usuárias é ainda maior: 85,8% são categóricas ao afirmar que não se arrependem da traição.

No mesmo dia de Marina, conversei com Paula, profissional liberal carioca de 38 anos, mãe de um casal e casada há 12 anos com um ginecologista (ironia?).

Sua maior queixa do marido e principal fator que a impulsionou a entrar no site foi a falta de atenção e o pouco tempo que o doutor dá a ela.

Depois que o segundo filho nasceu, a situação piorou. “Ele ficou mais relaxado. No começo eu até tentava alguma coisa, mas ele dava umas desculpinhas, dizia que estava cansado, que em poucas horas teria que sair para o plantão…”, disse ela.

“Até imaginei que ele pudesse ter uma amante. Cheguei a segui-lo várias vezes, mas não descobri nada. Aí percebi que foi o tesão dele que acabou. Mas o meu, não. Hoje em dia a gente quase não faz mais sexo.” E foi aí que ela começou a procurar outros homens.

“Não costumo sair com nenhum homem aqui no Rio, mas viajo muito por causa do meu trabalho e aproveito essas brechas para fazer novas amizades. Isso não quer dizer que em toda viagem eu saia com alguém. Às vezes não tenho vontade”, confessa Paula, que é assinante do secondlove.com há um ano.

Perguntei se ela pretendia se separar do marido e ela negou, disse acreditar que isso não é motivo para pôr fim a um casamento de longa data como o dela.

Com uma história bem diferente, Laura conversou muito tempo comigo no chat do Second Love. Falamos sobre várias coisas: música, filmes, viagens… Até que, na terceira vez que nos encontramos no MSN, consegui descobrir por que ela enganava o marido.

“Descobri que ele havia me traído. E não tinha sido só uma vez, não. Aí, você sabe, não consigo mais acreditar nele. Então eu faço isso. É uma maneira de me sentir vingada, entende?” Ok, dá para entender.

(Inara Negrão/Revista VIP)

Eis que, quando já estava convencido de que as mulheres só enfeitam a cabeça dos seus maridos por se sentirem abandonadas e carentes, me aparece a Carolina, uma dona de casa de 33 anos, casada há cinco e sem filhos. Sem muita enrolação, ela me disse que trai o marido por prazer. Simples assim.

“Eu gosto de sexo. Gosto de descobrir o prazer que os outros homens podem me dar”, confessa. Conectada ao Ashley Madison há nove meses, ela me disse que já saiu com 11 homens nesse período.

“Eu não estou insatisfeita com meu casamento nem pretendo deixar meu marido. Só gosto de transar com outros homens, experimentar novos sentimentos”, afirma.

Interessante, não? Logo imaginei quantas histórias curiosas ela teria para me contar. Mas primeiro tive que investir em um papo mais longo, para ela não perceber que eu estava, digamos, “investigando” sua vida. Contei sobre minhas supostas aventuras extraconjugais e pedi que ela me contasse alguma delas.

Carol disse que, como não trabalha, costuma marcar seus encontros à tarde, quando o marido está no escritório. A maioria deles ocorre em motéis, mas ela já esteve na casa de um cara que conheceu no site.

Sem falar em aventuras bem mais ousadas, como uma que rolou durante viagem que fez com o marido ao Nordeste. “Eu me interessei por um dos funcionários do hotel. Era um moreno de cabeça raspada, com o corpo sarado. Eu trocava uns olhares e dava sorrisos de canto de boca”, lembrou Carol.

Perguntei como ela tinha conseguido despistar o marido para encontrar o cara do hotel.

Ela respondeu: “Aproveitei que meu marido tem um sono muito pesado e acordei de madrugada. Desci até a recepção, onde ele ficava, e fiz um sinal com a cabeça para ele vir falar comigo. Na mesma hora ele respondeu com outro sinal para eu segui-lo. Entramos em um quarto que parecia um depósito na área da piscina e ficamos ali. Acho que essa foi a maior loucura que fiz. Mas foi bom”.

Que safada, pensei. E dessa vez nem precisou da ajuda de site nenhum.

 

A vida imita a arte

(Inara Negrão/Revista VIP)

1954 – Disque M Para Matar

Estrelado por Grace Kelly, o filme de Hitchcock conta a história de um ex-tenista que decide matar a esposa para se vingar da traição dela com um escritor e herdar sua fortuna.

2002 – Infidelidade

Casada há 11 anos e com um filho, Connie tem uma vida feliz com o marido, Edward. Até que conhece um francês e fica balançada. Edward vira corno, descobre o caso e resolve confrontar o amante – e arruma uma baita encrenca.

1967 – A bela da tarde

Catherine Deneuve, neste filme do diretor Luis Buñuel, vive Séverine, uma mulher apaixonada por seu marido médico, mas insatisfeita sexualmente pela falta de intimidade. Ela então procura um bordel onde vive suas fantasias durante a tarde para, à noite, voltar a ser uma dedicada esposa.

2006 – Maria Antonieta

A princesa austríaca Maria Antonieta casa-se com o príncipe francês Luís XVI. Morando na França, longe da família e sendo desprezada pelo marido, ela se envolve com um soldado sueco.

2012 – Anna Karenina

Baseado na obra de Tolstói, o filme conta a história de uma mulher casada com um rico funcionário do governo e cortejada pelo conde Vronski. Atraída pelo conde, ela decide largar o marido, que se recusa a dar o divórcio e a proíbe de ver os filhos.

Trair por quê?

A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de O Livro do Amor, entre outros, pode ser considerada uma expert em traição. E suas opiniões são contundentes.

Para ela, ter uma relação extraconjugal não deveria ser um tabu. “Ninguém deveria ficar preocupado se o parceiro transa ou não com outra pessoa. Deveria se preocupar em responder a duas perguntas: ‘Sinto-me amado? Sinto-me desejado?’.

Se a resposta for sim para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. As pessoas viveriam mais satisfeitas”, diz.

Para o psicólogo Frederico Mattos, os motivos que explicam o medo que as pessoas têm de serem traídas são: posse (“Essa pessoa é minha e não pode ser de mais ninguém”), orgulho (“Quero garantir que ninguém me engane”), inveja (“Como essa pessoa pode ter prazer antes de mim?”) e paranoia (“Sou desconfiado e vou desconfiar do que outra pessoa faça”).

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