Nelson Cerqueira e a sua Jane dos impossíveis

Nelson Cerqueira. Foto: Divulgação

Pode a razão abstrata dar conta da potência da natureza? Ezilda Melo situa o romance O Quinto Segredo de Jane, do imortal Nelson Cerqueira, presidente da Academia de Letras da Bahia, a partir “de referências sociológicas, históricas, antropológicas, artísticas, geográficas, psicanalistas, musicais, esportistas, culinárias, cinematográficas, mitológicas, poéticas, religiosas, feministas, sobre física quântica, biodança, ioga e tantos outros temas complexos, perscrutando códigos de moralidade a partir do olhar da estudante Jane, de personalidade complexa, não linear, que se muda de Salvador para cursar mestrado em sociologia na USP, doutorado na Sorbonne, mostrando como funciona o universo acadêmico e quais as expectativas empregatícias para quem envereda por essa área”.

De fato, o livro de Nelson Cerqueira traz questões de grande densidade, destacando a frase de Nietzsche, Deus está morto. Logo, o poder encontra-se hoje distribuído pelos diversos setores da sociedade que buscam impor a hegemonia de valores e padrões de conduta social.

A conclusão está à altura do grande poeta, romancista, com trabalhos publicados em quatro continentes sobre teoria literária, metodologia no direito, modernidade, teoria do discurso e hermenêutica, enfim, ensaísta, autor — entre outros — do badalado Por uma nova fronteira da desigualdade, prefácio à Magnum Opus de Taurino Araújo.

Aqui, a revelação de que qualquer aprendizado às pressas é difícil — incluindo o aprender a ser livre — cutucada filosófica a partir do narrador Dave, irmão de Jane, filósofo e psicanalista que, a fundo, nunca compreendeu as atitudes, palavras e vida de sua irmã, apesar de todo o esforço intelectual que ele dedica para interpretá-la.

Em sua saborosa narrativa, Nelson Cerqueira nos brinda com outros dilemas importantes: Por que, então, estamos morrendo na alma e no corpo? Que significa existir, em sua plenitude, nas sociedades contemporâneas, homogeneizantes?

Para responder a tudo isso, o novo livro de Nelson Cerqueira, constrói uma personagem feminina complexa, indecifrável, agradável, sedutora, de extrema potência trágica. Logo, a por mim denominada Jane dos impossíveis transborda e exala a força da natureza, ela diz sim à vida, com tudo o que a vida tem de finitude e de contradição.

Leitora de Nietzsche, desde jovem, Jane vive o exercício da sua vontade de poder: nas possibilidades do vir a ser, para realizar o “verdadeiro” sentido do ser, ou seja: experimentar todo o sentido do ser em sua força, buscar a potência da alma e a plenitude do corpo. Sua alma se encaminha para o conhecimento e seu corpo se projeta para o prazer. Finalizo por aqui. Comece, imediatamente, a prazerosa leitura de O Quinto segredo de Jane.

Por Eduardo Boaventura, filósofo, escritor, Doutor em Heidegger, professor de Filosofia eduardoboaventura.filo@bol.com.br

Comente!

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui