Males quem vem para bem

Na praia, encostei no balcão da barraca e pedi uma porção de pastéis àquela senhora.

– Claro, Excelência, é pra já! Assim me respondeu com um leve sorriso no rosto.

Opa!! Ela sabe que sou juiz.

– Não se lembra de mim, não é, doutor.

Sinceramente não me lembrava, mas para não ser deselegante preferi dizer “seu rosto não me é estranho”.

Então ela retrucou:

– O senhor mandou prender meu irmão!

Meu Deus! Ser juiz tem dessas coisas, às vezes cruzamos a vida das pessoas sem saber. Decidimos sobre a vida das pessoas e sequer sabemos quem atingimos com nossas decisões, justas ou injustas, diga-se de passagem.

Ela continuou:

– Meu irmão era usuário de drogas, foi preso em flagrante com poucos papelotes de crack num fim de semana; fui até o fórum, eu e minha mãe, pedimos ao senhor que o soltasse, que lhe desse uma chance de responder ao processo em liberdade.

Lembrei-me da época em que era juiz criminal na cidade de Porto Seguro. Toda segunda-feira atendia ao público que me procurava no fórum. Era uma forma de ter contato direto com a população. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas pelas autoridades desse país.

Geralmente quem me procurava no fórum eram as mães dos presos, que quase sempre me pediam para que eu tirasse seu filho da cadeia. Elas sempre me diziam que seus filhos eram inocentes (ah! as mães, santas mães, elas nunca abandonam seus filhos).

Eu havia atendido aquela mulher que agora estava diante de mim e dizia que eu havia mandado prender seu irmão.

Então ela contou:

– Meu irmão, doutor, era usuário de droga; foi preso pela polícia e levado à delegacia; na segunda-feira seguinte, fui até o fórum falar com o senhor; pedi insistentemente que o senhor o soltasse, mas Vossa Excelência me disse “NÃO”. Disse-me o senhor que ele deveria permanecer preso enquanto tramitasse o processo. Na hora, fiquei revoltada e achava que era a maior injustiça o que o senhor estava fazendo. Eu e minha mãe fomos para casa chorando. Voltamos a procurar o senhor no fórum mais duas ou três vezes, gastamos com advogados, mas ele continuava preso e sofrendo. Meu irmão sofria muito com a abstinência da droga e a grande violência no interior da cela da delegacia; a cela em que ele estava era para quatro presos, mas havia mais de trinta criminosos. Eles se revezavam para poder dormir deitado. Nesse tempo, meu irmão ficou longe das drogas e das más influências. Foram três meses de espera, Excelência, até que chegou o dia da audiência no Fórum.

Então ela me contou o fim da história:

– Na audiência, finalmente, depois de ouvir meu irmão e as testemunhas, o senhor deu a decisão final e considerou que ele era apenas um usuário de drogas. O senhor, seu juiz, determinou que ele fosse imediatamente posto em liberdade. Hoje meu irmão está livre das drogas e se tornou um homem trabalhador e bom pai de família. Se o senhor tivesse soltado logo meu irmão, certamente ele continuaria no mundo do crime e das drogas. O tempo que ele ficou preso serviu para repensar a vida e encontrar uma saída para o vício das drogas. Graças a Deus e graças ao senhor, doutor, meu irmão hoje se tornou um outro homem. Minha família inteira ficou grata ao seu trabalho e rezamos sempre pela sua vida.

Recebi meus pastéis; ela me disse que não precisava pagar, que era um presente. Senti uma pequena brisa de bondade no ar e a presença divina na minha vida, sorri envaidecido por dentro e agradeci a Deus por me permitir, às vezes, fazer mais que justiça, fazer verdadeiramente o bem pelo próximo.

E disse: – Obrigado pelos pastéis, obrigado pelas orações, agradeça a sua família por mim, agradeça especialmente a seu irmão por ter me permitido fazer o bem.

 

 

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