Janeiro

Os dias vão passando, dois mil e vinte foi perigosamente reprimido pela covid, a sedução do passado não existe, e este novo ano vai começar a fluir, mas não esqueceremos as longas horas de silêncio, um silêncio absoluto e poderoso do que qualquer coisa que  jamais imaginamos, mesmo sem saber, já que as rotinas de vida mudaram e na linha reta  do horizonte a nossa frente existem caminhos desconhecidos. Para onde vamos? Penso sem saudade nem mágoa no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida, dentro de mim elas são irmãs. Medito gravemente em honra de muitas pessoas fragilizadas. Que minha fé me mantenha no rumo certo.

A dedicatória na Bíblia, no dia de minha confirmação de batismo me vem à mente, “Não estamos aqui para ser felizes, senão para cumprir com o nosso dever”, que segundo Mahatma Gandhi, “Só engrandecemos o nosso direito à vida cumprindo o nosso dever de cidadãos do mundo”. E neste momento somos todos cidadãos da terra, enfrentando o mesmo problema, que só com a ciência e neste momento com a disciplina será superado, e sei que a crueldade da vida é que ela sobrevive à custa de mutações, e ela foi reduzindo a cada quatro anos com a troca dos líderes da nação e a esperança foi minguando e secando devagar, se despedindo dos pedaços de si mesma, se apequenando e empobrecendo, e no fim foi reduzida ao instinto de sobrevivência neste Brasil cheio de contradições.

Aqui em casa fechado neste confinamento, o último pensamento do ano, ainda repousa no silêncio da minha memória de que muitos brasileiros revelam egoísmo colocando o prazer imediato a frente do bem coletivo, buscam ansiosamente o que é passageiro não estimulando o cérebro com o dever coletivo. E após estas festas de fim de ano, cada hora tem sua determinação e qualidade particular. Como cada hora possui a sua previsão de segurança, mas também, a sua adesão ao perigo. Olhos que veem sem olhar, passado que não passa e que volta para infligir sofrimento.

Mas escrever é construir uma ponte de tábuas em balanço, avançar e recuar no escuro, centímetro a centímetro, tábua a tábua, e o máximo que posso esperar é me descobrir cada dia mais longe do ponto de partida, equilibrando-me sobre o precipício. Cedo ou tarde o feitiço do vírus acaba. Então o viver volta a se materializar com as antigas exigências e limitações do dia a dia. Mesmo com o mistério do surgimento desta pandemia e sem entender o absurdo de tantas mortes. Temos apenas  que aceitar o inexplicável do viver.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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