Helvécia atrai olhar do fotógrafo Dom Smaz e imagens ganham o mundo

De Helvécia para o mundo. Fotos: Reprodução

O fotógrafo suíço-brasileiro Dom Smaz vem, desde 2015, fazendo um trabalho de fotografia documental em Helvécia, no município de Nova Viçosa, com a intenção de manter viva a história pouco conhecida do lugar.

O vilarejo de Helvécia foi descoberto por Dom Smaz quando ele, passando pela BR-101, viu uma placa com o nome e isso lhe chamou a atenção. No primeiro momento, ele não disse nada. Concluiu sua estadia em Teixeira de Freitas e seguiu, posteriormente, para a Suíça, onde começou a pesquisar mais a respeito daquela localidade.

Após pesquisas aprofundadas, o fotógrafo ligou para o seu sogro Dori Neves, secretário de Agricultura de Teixeira, e disse ter descoberto que se tratava de uma ex-colônia da Suíça. Ele também garantiu que, se voltasse ao Brasil, conheceria aquela região e faria um trabalho de fotografia.

Créditos na imagem

Além desse, Dom Smaz também desenvolveu trabalhos com os funcionários do viveiro da Suzano, tecendo uma criteriosa crítica à ideia de que “os negros escravos que viraram donos das terras voltaram a ser escravos”, a partir de que as empresas, tendo aproveitado a falta de canais e meios de produção por parte dos ex-escravos, compraram aquelas terras.

O fotógrafo Dom Smaz trabalha com os principais meios de comunicação internacionais. Seus trabalhos sobre herança colonial, diferenças sociais, racismo e exclusão já foram exibidos na Europa, Ásia e América do Sul e já receberam vários prêmios de prestígio, incluindo o Swiss Press Photo 2018 e NY Photo Awards.

Dom Smaz lança luz sobre esse confronto ideológico silencioso das culturas europeia e africana

A série “Black Helvetia”, de Dom Smaz, lança luz sobre esse confronto ideológico silencioso das culturas europeia e africana, onde crianças negras brincam com bonecas brancas e os evangélicos cristãos ainda consideram a cultura afro-descendente um mal.

Esse trabalho acaba de ganhar uma exposição na Colômbia! Dez fotos de Helvécia foram escolhidas pelo Museo Nacional de la Fotografia de Colômbia para fazer parte da 7ª edição do Encontro Internacional de Fotografia: FOTÓGRAFA BOGOTÁ!

Fotos expostas na 7ª edição do Encontro Internacional de Fotografia

Todo o trabalho de pesquisa histórica e texto para o livro que estão montando é da esposa do fotógrafo, a jornalista Milena Neves, teixeirense que hoje reside na Suíça, se formou em jornalismo no Rio de Janeiro e atuou na Globo Internacional em Nova York. Ainda estudante de jornalismo, mostrou seu talento quando foi colaboradora da revista Leia Mais, onde fez matérias importantes, uma sobre a Serra do Caparaó, outra sobre a história de Caravelas e também sobre o arquipélago de Abrolhos.

A história do povoado

Helvécia é reconhecida oficialmente como uma Comunidade Quilombola.Com uma particularidade: é um dos pouquíssimos lugares no Brasil em que o quilombo foi formado no lugar que a população foi escravizada, e não em um local afastado ou de refúgio.

Assim que Maria Leopoldina (que seria a primeira esposa de Dom Pedro I) chegou ao Brasil, quis trazer para o país empresários de sua região e, para isso, convenceu o Imperador D. Pedro I a doar áreas de terras para eles e uma das regiões escolhidas foi a atual Helvécia.

Helvetia é o nome dado pelos antigos romanos à região que hoje é a Suíça. Então, “confederação helvética” é como o país europeu era conhecido na época e até hoje por aqui.

Leopoldina era da Áustria, mas se comprometeu mesmo com o processo de colonização europeia no Brasil estimulando a vinda de colonos europeus em troca de terras.

O retrato desta história ganhou o mundo

Atendendo aos pedidos de Maria Leopoldina, os suíços (Franceses e Alemães) vieram para a região onde iniciaram as primeiras lavouras de café, usando a mão-de-obra escrava, como faziam os portugueses na época.

Um dos colonos suíços que vieram pra Colonia Leopoldina (nome de Helvécia no início) colocou o nome de sua fazenda “Helvetia”. Essa se tornou uma das fazendas de maior sucesso econômico. Por isso, depois da abolição e com o fim da colônia, a região ficou conhecida pelo nome “abrasileirado” dessa fazenda.

Em 1850, com a mão-de-obra de mais de 2.000 escravos africanos, a colônia de agricultura prosperou, permitindo que os colonos produzissem uma das maiores exportações de café do Brasil. Para chegar até o Porto e exportar a carga para a Europa, os então escravos trafegavam de canoa pelos rios Peruípe, Nova Viçosa e Caravelas, onde desembarcavam.

Por ser uma região de difícil acesso e muito distante de tudo, mesmo após 6 meses do fim da escravidão, os colonos ainda continuaram a manter o trabalho escravo.

Um padre, passando pela estação de Helvécia, uma das mais importantes da época, para pegar o trem com destino a Teófilo Otoni, observou negros escravos acorrentados e tomou a decisão de avisar que a escravidão já tinha acabado. APós isso, ele entrou no trem e seguiu viagem.

Os escravos em grande número se rebelaram em conjunto e os suíços derrotados foram obrigados a ir embora.

O maior marco da história é que eles, negros escravizados, assumiram o controle das terras onde eram escravos, o que foi de grande impacto, pois nas outras colônias portuguesas, após abolição da escravatura, os senhores de escravos passaram a ser o senhor feudal.

Porém, como os ex-escravos não tinham os mecanismos da comercialização e exportação, como também, não possuíam conhecimento de insumos necessários para a produção e manejo do café, a colônia caiu em decadência, vindo a ser uma colônia de subsistência.

Helvécia foi o único lugar que após a escravidão as terras ficaram com os escravos. Hoje, é lar de poucas famílias de descendência europeia. A maioria da população é de ascendência africana.

Texto original e fotos: Foco no Poder

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