Gordinhos mostram samba no pé na Sapucaí

Mocidade e Beija-Flor deram destaques a integrantes ‘fofinhos’. ‘Isso acaba com a ditadura da beleza’, diz foliã

Nada de tanquinho sarado ou bumbum empinado. O que chamou a atenção nos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro foram corpos menos definidos e mais recheados. Os gordinhos fizeram sucesso na Sapucaí, principalmente na passagem da Mocidade Independente de Padre Miguel, que na segunda-feira (7) levou um carro alegórico com oito casais rechonchudos bem resolvidos. A escola esse ano contou o enredo “Parábola dos divinos semeadores”.

Na alegoria que representou a Saturnália, festa romana em celebração ao deus Saturno, os gordinhos encenaram uma farra sensual bem-humorada e sem preconceitos numa sauna romana. A ideia foi do carnavalesco Cid Carvalho. Para ele, estar acima do peso não foi o único pré-requisito para desfilar, o folião precisava estar de bem com o próprio corpo. “A ideia é a pessoa se assumir, se aceitar do jeito que é”, disse.

Esse é o caso de Ana Lúcia de Albuquerque, de 36 anos, que fez parte do grupo que desfilou no carro. “Com esse carro, a Mocidade deu a oportunidade de pessoas normais curtirem o carnaval como merecem. Foi maravilhoso”, disse. “Isso acaba com a ditadura da beleza que alguém inventou”, acredita.

Pesando 180 kg, o estudante Tiago Acácio afirmou que a iniciativa é para quebrar o preconceito que há em torno dos gordinhos. Segundo ele, pessoas que estão acima do peso também sabem ser sensuais e não só apenas rostinho bonitos. “Queremos o nosso valor e o Cid deu essa oportunidade. Isso não é apenas uma encenação, mas o que somos de verdade. A sensualidade não é só dos magrinhos. Nós também sabemos ser gostosos e ‘pegadores'”, garantiu.

Usando apenas um véu branco, um biquíni e um cacho de uvas na cabeça, a professora de educação física Ana Paula Monçalves, de 34 anos, disse que é a primeira vez que aparece em público com tão pouca roupa. Já Daniele Bittencourt apostou na ousadia e criatividade para brincar na Avenida. “O povo acha que gordo só serve para vir encapuzado. E nós, de uma certa forma, quebramos esse vidro. O Cid e a escola deram oportunidade e nós aproveitamos na passarela”, disse.

“Eu achei o máximo. No começo fiquei com um pouco de vergonha, mas depois entrei no clima. É o carnaval democrático. Baco junto com Momo vai fazer a festa”, disse Paulo Araújo, de 30 anos, que pesa 90 kg, fazendo referência ao deus do vinho.

“Somos gordinhos normais, gordinhos saudáveis. Somos gordos, mas saudáveis”, afirmou Beth Mocidade, uma das integrantes do carro alegórico “Festa de Ísis”.

“Foi uma grande realização porque geralmente os gordinhos não têm destaque no carnaval e a Mocidade deu oportunidade de colocar um carro só pra gente”, disse Carolyne.

“O carnaval tem, sim, que ser para todo mundo, não só para os magrinhos. Sou gordinho assumido e até comi as uvas que estavam decorando o carro”, brincou Rodrigo Kaleb.

‘Sou a mulata que tem carne’

Com muito samba no pé e a poucos minutos para entrar na avenida, a dançarina Márcia Risso, vestida com pouca roupa, estava à vontade com os quilinhos extras. “Eu sou a verdadeira mulata. A mulata tem que ter carne”, afirmou ela, que desfilou na Beija-Flor.

A capixaba Sara Passos, que também estava em uma ala da Beija-Flor, vestia uma roupa mais discreta, mas era uma gordinha assumida. “Me sinto totalmente à vontade. A gente tem que se amar. A verdadeira mulher tem bumbum e quadril grandes. Como diz até mesmo Roberto Carlos, que fez uma música para as gordinhas”, disse ela.

O representante comercial Adailton Cordovil chegou domingo (6) de Paris, na França, onde a temperatura está cerca de 4 graus, e já na noite desta segunda-feira (7) foi direto para a Marquês de Sapucaí, desfilar pela Mocidade. A animação era grande, mas a roupa de barriga de fora gerou um certo desconforto para ele, que não segue os padrões de magreza.

“Se eu tivesse escolhido não usaria, mas já está na mão, então vamos nessa”, disse ele, antes de entrar na avenida. Em seguida, ele relevou. “Carnaval as pessoas não olham para isso”, disse o estreante no Sambódromo e morador de Belém.

Fonte: Carolina Lauriano, Mylène Neno, Rodrigo Vianna e Tássia Thum / G1

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