Evangelho e evangelhos

Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo.” (Gálatas 1.6-7)

Você entende o que crê? Você entende o que lê, quando lê as Escrituras? Um olhar dirigido à vida religiosa, uma leitura feita das atitudes que marcam o cotidiano de um país majoritariamente cristão e tão evangélico como o nosso, uma leitura calma e reflexiva de tantas cosias escritas e opiniões dadas, deixará perguntas e conclusões incômodas. Pois ficará claro que muitos não estão lendo as Escrituras. Estão deixando de lado o Evangelho. E se afirmarem que estão lendo, que estão mantendo-se no Evangelho, precisaremos considerar que compreensão estão tendo do que leem e que evangelho é esse que lhes inspira atitudes e apegos tão estranhos ao Evangelho. Sendo o Evangelho o que é, é muito confuso o que nós cristãos, e especialmente nós evangélicos, temos sido. O problema não está no estilo, nas ênfases, nas tradições liturgias ou nas tradições ritualísticas. O problema está na compreensão sobre Deus, sobre o ser humano, sobre a igreja e sobre a vida. O problema toca a essência. Estamos lendo e crendo o mesmo Evangelho?

Escrevendo aos Gálatas, Paulo os alertou com certa ironia de que estavam deixando o Evangelho para crer num outro evangelho. Há duas palavras gregas para outro: heteros e allosHeteros indica outro diferente e allos, outro igual. Quando o que nos diferencia é o estilo do culto, a ênfase de nossas ações, a maneira como realizamos nossos ritos, mas revelamos convergência no que pensamos sobre Deus, sobre o ser humano, sobre a igreja e sobre a vida, estamos apenas praticando um allos evangelho! Um evangelho igual apesar das diferenças. Isso não seria um problema e seria, na verdade, uma providência divina para, por todos os meios, redimir pecadores. Mas as diferenças entre pastores, igrejas e cristãos revelam que trata-se de um heteros evangelho! Um evangelho diferente na essência. Sempre na história, desde o começo da era cristã, evangelhos corrompidos foram pregados e vividos. Claro, facilmente podemos pensar que o problema está como o outro evangelho dos outros. Como dizia Jean-Paul Sartre, o inferno são os outros! Diante da babel de fé em que nos encontramos, devemos parar e ouvir a voz do Espírito. E então buscar discernimento. Nestes tempos de tantas falas, estamos precisando ouvir e refletir.

No caso dos gálatas, os judaizantes queriam que a graça recebesse cooperação da lei para que houve aceitação de Deus. Um arranjo que simplesmente anulava a graça. Por isso Paulo disse aqueles cristãos: ao aceitar este arranjo, vocês caíram da graça! (Gl 5.4). A graça sempre foi um problema para a mente humana. Não admitimos, mas o escândalo da cruz não desce bem em nossa garganta. A justiça e a paz do Reino de Deus também nos são estranhas. O amor de um Deus que abre generosamente os braços para acolher, perdoar e incluir pecadores em Seu Reino, um Reino que não compactua com o poder para ganhar terreno, que inegociavelmente trilha o caminho do amor, do serviço, do perdão e da misericórdia, nada disso cabe nas formas de nossa teologia, nas estruturas e esquemas de nossa religião. Uma missão que não se ocupa de aniquilar os inimigos, mas de matar a sua fome e de tratá-lo com bondade, não agrada nossa fome por hegemonia. Que evangelho é o nosso? Ao longo dessa semana convido-lhe a refletir e orar sobre isso.

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