Dois amigos

Não tive cerimônia de adeus com os amigos Luiz Roberto Reuter e Alexandre Brust, que perdi para a doença que assusta o mundo este mês.

Com o primeiro, tenho as duas últimas mensagens de áudio antes da internação em dezembro, onde passou sessenta dias na UTI. O segundo, não tive contato na pandemia, como passou estes momentos? Deixaram marcas, do convívio mostrando uma visão de mundo singular.

Agora ouço o som dos carros passando na rua e eles não estão mais aqui. Apoiado no cotovelo, com a janela aberta, neste sábado de toque de recolher, o sol e a sombra em nítido contraste no prédio do outro lado da rua.

As conexões de amizade se desintegraram e as cortinas se fecharam entre nós. Acabou a corda do relógio para eles. Resta apenas o pontinho na memória , só isto, e a certeza que saíram do mundo fechado do viver.

Minha memória agora é como um ponto de emoções. Seus nomes chegam e o passado vem de volta em cascata. Todas as lembranças estão neste ponto que é a essência do que representaram para mim.

Será que agora estão em algum lugar estranho? A fascinação existe neste distanciamento da ausência e o modo de entender suas vidas com está separação definitiva.

A chuva mansa cai agora. O silêncio do toque de recolher ajuda a abrir o intrincado caminho aqui dentro por onde vou descendo até o fundo do nosso passado juntos.

Sobre a minha mesa: papéis e livros. Abate-se sobre mim um vazio, uma espécie de ausência do nosso convívio. Sinto-me cair num buraco, onde perco a noção do tempo e do espaço, e os pensamentos, conforme Kali Giblan, “São uma ave do espaço, que numa gaiola de palavras pode abrir suas asas mas não pode voar”.

Não posso mais chegar a eles, nem por palavras nem por pensamentos, é a sentença do destino, o dedo de Deus. O nascer ,o crescer e o morrer envolvem forças além de nossas pretensões.
Podem rezar missas aos potes para que as almas deles se salvem, mas eles não querem isso.

Estão espantados: querem saber por que morreram, para que morreram.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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