Bandido tem mãe

Estou no meu gabinete no Fórum. É véspera de feriado. Centenas de processo a cuidar e os dias úteis a findar.

Bate à minha porta minha assessora. “Doutor !!??”.

Recebo dela nas minhas mãos um envelope lacrado, endereçado a “Dr. Roberto .. Juiz”.

Na carta o choro de uma mãe cujo filho está preso.

Atualmente há muitos anos na área cível, fazia tempo que não recebia uma “cartinha” de uma mãe desesperada em razão do seu filho estar preso.

Depois de dezessete anos como juiz, milhares de processos, muitas pessoas criminosas à minha presença, mães desesperadas porque seus filhos estão enjaulados como bicho, ainda consigo sentir compaixão por essas mulheres.

As palavras dessas mães, criaturas de Deus, são quase sempre as mesmas.

Nesta cartinha que recebi hoje e que está aberta sob minha mesa, dona Eva pede meu clamor e que “em nome de Jesus venha ter misericórdia do seu filho”. Pede pra que seu filho seja punido, mas que seja libertado daquele lugar “medonho e temeroso… falo isso porque fiz uma visita ao presídio e fiquei muitíssimo triste e preocupada, apavorada…”.

Conta a pobre mãe desesperada que seu filho lhe disse na visita: “mãe, me tira desse lugar, estou com medo, isso não é lugar para um ser humano…” e confessa “não concordo com as atitudes que levaram meu filho até aquele lugar, mas sou uma mãe e ele é o filho que Deus me deu…. sou uma batalhadora, mas parece que minha luta não foi suficiente… meu coração de mãe está estraçalhado e triste, mas creio que Deus e o senhor podem dar uma nova chance ao meu filho…. e não posso fazer nada senão escrever essa carta para o senhor Juiz para ajudar meu filho que não ouviu conselhos de sua mãe…”.

Não sei dizer o que essa pobre mãe espera de mim, um simples juiz, que é pago para aplicar a lei, se o filho dela não escutou os conselhos da mulher que o gerou e com certeza mais o amou nessa vida.

Esses rapazes, geralmente presos por seu envolvimento com drogas, não costumam ouvir conselhos de mãe, nem aproveitar chances na vida. Ao contrário, via de regra, morrem antes dos vinte e cinco anos, num beco escuro, vítima de arma de fogo disparada por um outro rapaz que também não ouviu os conselhos da sua mãe.

Não lembro exatamente qual foi o crime que o filho desta pobre mulher cometeu, pois não me recordo do processo judicial.

Porém, com certeza, fico a imaginar: qual crime cometeu essa pobre mãe para ser punida tão duramente pela vida, testemunhando seu filho enjaulado como bicho numa masmorra tenebrosa !?

 

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