A subjetividade da piedade

“O que acham? Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. E este respondeu: ‘Não quero! ’ Mas depois mudou de idéia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: ‘Sim, senhor! ’ Mas não foi. “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (Mateus 21.28-31)

O que é uma pessoa piedosa? Ou melhor: como é uma pessoa piedosa? Depende. Depende porque a piedade será julgada segundo as condições de quem julga. E há gabaritos e gabaritos para a piedade. Se o gabarito usado for definido por indicadores religiosos, um piedoso será alguém que atende as expectativas da religião. E aí, vai depender da religião. Se o que determina o gabarito for, por exemplo, aspectos como quietude, calma, tempo dedicado à oração, todos que transparecerem isso serão tidos como piedosos. Piedoso em português vem do latim pio e significa aquele que cumpre o seu dever. No Novo Testamento o termo grego equivalente é o eusébeia que pode ser entendido como aquele que teme a Deus do modo certo ou, literalmente, bom temor. O fato é que piedade é difícil de ser confirmada. É possível falsos positivos, tanto quanto falsos negativos.

Há uma tal subjetividade na piedade que, na maioria das vezes, talvez, só possa ser vista por Deus. Como no caso da viúva pobre que foi quem deu mais, tendo dado menos. Esta parábola contada por Jesus nos é muito útil. Ela exemplifica o fato de que podemos aparentemente ser tementes a Deus mas, na verdade, ao contrário, agirmos sem nenhum temor. Pode também alguém aos nosso olhos, que são míopes para o mundo interior, julgar ímpio quem, de fato, é pio ou piedoso aos olhos de Deus. O primeiro filho disse “não quero fazer o que me pede pai!”, mas contrariando a própria vontade atendeu a vontade do pai. O segundo filho prontamente respondeu “sim pai, eu atenderei à sua vontade”, mas depois a própria vontade falou mais alto e ele não foi fazer o que o pai havia pedido. E então Jesus fez uma pergunta fácil de responder: qual dos dois fez a vontade do pai? A resposta ficou facilitada porque Jesus revelou a subjetividade. Revelou o que cada filho fez e não apenas o que cada filho disse. Mas nem sempre será fácil ver a realidade. Normalmente ficamos na aparência. E, como diz o ditado: quem vê cara não vê coração.

Considerando todas estas coisas, qual deve ser a nossa preocupação? Os outros e sua piedade? Não. Nossa preocupação não deve ser os outros, mas nós mesmos. Os homens a quem Jesus contou esta parábola achavam-se piedosos. Depois de contar a parábola Jesus lhes disse: “Digo-lhes a verdade: Os publicanos e as prostitutas estão entrando antes de vocês no Reino de Deus” (Mt 21.31) Em outras palavras: eles são o filho que fez a coisa certa e vocês, aquele que apenas deu a resposta certa. Eles estavam julgando a outros como ímpios e não enxergavam a própria impiedade. E isso os tornava mais ímpios que aqueles a quem condenavam. Devemos manter nossos olhos mais em nós mesmos. Devemos escutar nossa própria voz e avaliar nossas próprias ações. Piedade não é o que dizemos, mas o que fazemos. Jesus alertou-nos: “Cuidado para que a luz que está em seu interior não seja trevas.” (Lc 11.35). No cuidado com nossa subjetividade podemos contar com o Espírito Santo que nos sonda e será bom poder contarmos uns com os outros. Que nossa luz, seja luz. Que nosso sim seja mais que apenas palavras.

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