A casa

A expressão “Fique em casa” foi a mais utilizada neste período. No conto de Mário de Andrade “A Dona Ausente”, ele detalha a vida dos marinheiros, nas longas viagens, que partem em luta com o mar e, por todas as dificuldades que fazem o trabalho marinho, é obrigado a abandonar a amada em terra.

O ramerrão do mar, em síntese, é o mesmo de casa, luta pela vida, comer, dormir… Mas a dona está ausente, e sem dúvida este é o mais sofrido dos males a que o marujo está exposto em viagem tendo o pavor do vazio da amada, aquilo que se chama “horror vacui”. O que restava então para as nuances, para o mistério além da imaginação? O medo da morte no mar.

Hoje a dona ausente é a liberdade, como conhecíamos, e a proximidade do outro. Essa deterioração veio à tona na forma de um medo autoprotetor. O marinheiro lutava com o mar e nós lutamos com nossas novas percepções da realidade após o distanciamento social.

Aquela capacidade que temos de crescer, de repente, relegada a um segundo plano. A amada está perto, temos que passar o estresse da convivência com o vírus juntos. Deixar de lado os próprios pontos de vista e valores para entrar sem preconceitos no mundo de quem está com você.

De certa forma, isso significa deixar de lado o seu eu. Não se perder no que pode vir a ser o mundo estranho ou bizarro do outro e que possa retornar ao seu próprio mundo quando quiser.

*João é natural de Salvador, onde reside. Engenheiro civil e de segurança do trabalho, é perito da Justiça do Trabalho e Federal. Neste espaço, nos apresenta o mundo sob sua ótica. Acompanhe no site www.osollo.com.br.

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